A inocência infantil é
uma dádiva, mas também pode colocar a própria VIDA em risco .
Há filmes que merecem
ser assistidos sobretudo pela sua cena final. É o caso deste filme,
e também de outro mais recente em cartaz: “A BUSCA”.
São filmes que abordam
o tema da FAMÍLIA.
Claro... como toda obra
artística bem construída, caso de ambas as películas, podemos
destacar diversos temas, pois elas podem ser apreciadas e
consideradas a partir de vários e diferentes ângulos.
O filme “O MENINO DE
PIJAMA LISTRADO” chamou minha atenção por retratar com primazia a
forma absurdamente diferente como duas crianças com a mesma idade –
8 anos – vivem a infância. Me fez novamente refletir que não é
possível falarmos em “A" infância mas em “infâncias”. Essa
etapa da vida é vivida de modo bem peculiar por cada infante,
dependendo sempre das condições de seu contexto cultural e do
momento histórico no qual a criança está inserida.
Toda pessoa é
o um ser sócio-histórica e culturalmente determinado. Há ainda a
parte que cabe à singularidade de cada um. Como cada pessoa se
posiciona diante da vida, dos desafios e as possibilidades que lhe
são apresentadas – uma parte que envolve determinações
genéticas, legados familiares, escolhas pessoais – processo
altamente complexo , multideterminado e sistêmico. Será que há
nesta vida algo de maior complexidade do que a configuração de cada
personalidade humana?
Mas este é um filme
que trata sobre como diferentes pessoas, em diferentes faixas etárias e papéis sociais vivem, convivem, vêem a vida
e se colocam nela. Como vivem e como morrem. Como “fazem escolhas”
e como vivem sem escolhas. Aborda ainda o tema de como casais nem
sempre concordam sobre coisas essenciais para o convívio em paz
debaixo de um mesmo teto, e para criarem seus filhos, bem como,
destaca que o que as mulheres sentem nem sempre é levado em conta,
da mesma forma, de como aquilo que as crianças sentem também não
são. Mas crianças e mulheres são pessoas em posição diferente na
vida? Ou não? Ou não foram? Ou não são assim consideradas ainda
hoje? Adultos e infantes são diferentes? Devem ser tratados
diferentemente? Têm diferentes responsabilidades diante da vida –
independente de seu gênero?
Aríés (1978) ajuda a lembrar
que a noção de infância não existiu sempre, é uma construção
mais recente. E o direito às mulheres de serem escutadas,
respeitadas e preservada a sua dignidade de posicionar-se no mundo
enquanto um ser adulto e com direito a escolhas e participação em
decisões – seja na vida ou seja no contexto da morte - como o
filme bem ilustra. É isso uma construção vigente atualmente em
todas as sociedades neste mundo? Em todas famílias na sociedade
brasileira? Acho que apenas estas duas questões, para quem assistiu
o filme bastam, para respondermos que também ao se abordar o tema
acerca do “ser mulher”, teremos que falar em diferentes formas de
ser mulher, nas sociedades e nas famílias hoje. Uma forma idealizada
de infância e sobre ser mulher não ajuda. É preciso ter os pés
bem calcados na realidade ao olhá-la.
E por falar em família,
a transmissão de padrões geracionais é outro tema muito brevemente
delineado no filme; porém não de menor importância, a ponto de não
merecer destaque. Isso pode ser percebido na forma do avô tratar a
avó, e do pai tratar a mãe, bem como, no comportamento da filha.
Aliás, com o final do filme não houve possibilidades de observar as
mudanças que possivelmente ocorreriam nos padrões familiares, nos
valores e nas crenças, a partir do evento trágico ocorrido. Mas há
cenas que ilustraram bem o sofrimento de ambas as esposas- a do pai e a do
filho, a partir da imposição unidirecional e exclusiva de valores e
ideias deles sobrepondo-se as delas, na vida e na morte, não abrindo
muitas possibilidades para escolhas.
Uma busca que diferente
do filme A BUSCA, termina com um fim trágico. Eu fiquei me
perguntando ao final, qual seria a continuidade do filme, se ele
assim tivesse uma. Me perguntei se uma criança precisou morrer para
que a vós da mãe, e da avó, se fizessem escutar.
Mas isso já são
elucubrações de uma espectadora que vivenciou a experiência
estética e interagiu com a obra. Indico ambos os filmes. Eles abrem
portas para várias reflexões. E o filme “A busca” pode ser que
ainda esteja em cartaz em alguns cinemas.
REFERÊNCIAS:
ARIÈS,
P. História
social da infância e da família.
Tradução: D. Flaksman. Rio de Janeiro:
LCT, 1978
Flávia Diniz Roldão Psicóloga, Pedagoga e Teóloga. Psicoterapeuta individual, de casais e familias. Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano. Contato:flaviaroldao@gmail.com
Fui assistir à
reapresentação do show de Bocelli “Amor em Porto Fino” na tela
do cinema. Sem palavras ! Adoravelmente belíssimo !!!
Ao estilo Bocelli, a
iluminação do show já é um show à parte. Como de costume o show
começa ao cair da tarde e a luz natural vai dando lugar aos poucos à
escuridão da noite, e à iluminação noturna. Faz lembrar o próprio
ciclo da vida.
E a propósito do ciclo
de vida, fiquei “ME” pensando... um amor que valha a pena hoje,
nesta etapa da vida, é um amor impregnado de romantismo, cuidado e
atenção. As pessoas vão ficando mais seletivas à medida em que o
tempo passa. O ditado “antes só do que mal acompanhada” passa a
ser lema na vida. É muito triste ver casais de meia idade ou idosos se suportando.
O tema do show é a
paixão – tão bem cantada no espetáculo! Mas como bem colocou o
cantor na entrevista ao início do película, paixão tem muitos
sentidos, por isso é preciso definir em que sentido se usa esta
palavra. Penso isso também sobre o amor, aliás, amor pra mim, é
mais importante que a paixão. Gosto de relações duradouras.
Me pensando percebi,
que generosidade, educação, atenção e cuidado passaram a ser
virtudes muito mais valorizadas num par amoroso à medida que a
maturidade foi chegando, e fui aprendendo a fazer escolhas
mais pertinentes, e a assumir para mim mesma, quais coisas são
fundamentais e quais aquelas das quais é possível abrir mão se
necessário for para levar um relacionamento à diante. Atenção,
paciência, romantismo, bom gosto e requinte cultural, são
fundamentais, valores inegociáveis nesta etapa da vida !
Mas ao pensar em etapas da vida, lembro-me do desenvolvimento humano. Os anos passam para todos, mas o desenvolvimento nem sempre chega no mesmo rítmo que a idade. Há adultos cuja face marca a passagem do tempo nos víncos das rugas, mas cujo desenvolvimento afetivo-emocional não acompanhou a passagem do tempo. Alguns adultos e idosos, no âmbito afetivo, emocional e psíquico não passam de adolescentes. Nosso corpo, alma e espírito não se desenvolvem sempre no mesmo rítmo, e por vezes uma destas dimensões pode estar bastante subdesenvolvida, enquanto outra está mais desenvolvida. Isso lembra também o próprio processo de envelhecimento humano, onde órgãos diferentes envelhecem em rítmos diferentes, coração, cérebro, e a própria pele, envelhecem de forma diferente numa mesma pessoa. Esse dado se manifesta de modo absolutamente complexo no vínculo entre um par amoroso, aproximando ou afastando os dois "adultos" que se relacionam.
O cenário do show é
também outro show. Especialmente o colorido que soma-se à
iluminação já anteriormente destacada. A escolha das músicas é
de um bom gosto impecável, e a entrevista com Bocelli acompanhado da
família dá um toque artístico unido ao familiar, todo especial ao
início da película. É ainda importante destacar o belo dueto que a esposa faz com ele na interpretação de uma música romântica que fora antigamente cantada por Piaff, momento bastante especial do show.
Há certos produtos
culturais cuja grandeza é muito maior e vai além do que se pode
colocar em palavras, escapando a qualquer possível comentário. É
preciso apreciar por si mesmo, realizando a própria experiência
estética e tirando as próprias conclusões.
Por hoje, fico no
êxtase da beleza vista e ouvida neste espetáculo.
Flávia Diniz
Roldão Psicóloga, Pedagoga e Teóloga. Psicoterapeuta individual, de
casais e familias. Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento
humano. Contato:flaviaroldao@gmail.com
Tempos
atrás comprei uma boneca bem interessante. Ela vem com as pernas
encolhidas presas entre os braços. Os braços formam um nó que
segura e paralisa as pernas. Comprei também uma lata de lixo um pouco
maior do que ela, e criei uma história, onde essa boneca passa a
morar nesta lata de lixo devido a baixa autoestima.
Me peguei pensando que esta mesma boneca utilizada na clínica e em
palestras, para trabalhar o tema da baixa autoestima com mulheres,
quando sozinha e sem a lata de lixo que a acompanha, pode
ser também utilizada como uma metáfora para trabalhar acerca do que
o medo as vezes faz com as pessoas: paralisa-as.
O
sentimento de medo causa no organismo uma reação que prepara para a
luta ou fuga. Mas enquanto preparação, não é a ação. É um
sentimento paralisador, imobilizador. Num primeiro momento, ele não
é nem negativo, nem positivo. Tudo depende de quanto tempo ele dura,
a serviço de que ele veio, e como a pessoa lida com ele. Pode ser
positivo, quando funciona como alerta para que a pessoa fique atenta
a algo perigoso que pode vir a lhe ocorrer se ela continuar adiante.
Nesse caso, fazendo uma comparação metafórica com o sinal de
trânsito, o medo é como um sinal amarelo, que convida
à atenção.
O medo que
uma criança tem de colocar a mão no fogo ou o dedo na tomada, pode
ser extremamente positivo e
protetor. Ou ainda o medo e a atenção consequente de um
estado de alerta,
que surge quando uma pessoa pensa em realizar algo que envolve certo
risco. Nestes casos o medo é
algo altamente benéfico.
O medo
passa a ser negativo em pelo menos duas outras situações. Quando a
pessoa convive com ele por um longo período de tempo, e quando ele é
“ilusório” e “desnecessário”.
No
primeiro caso ele é ruim, pois, a reação de medo desencadeia
stress no organismo. O stress envolve um longo processo de
alterações bioquímicas que impacta o organismo e visa prepará-lo
para uma ação de luta ou fuga. O stress “é uma reação
psicofisiológica muito complexa que tem a sua gênese na necessidade
do organismo fazer face a algo que ameace sua homeostase interna.”
(LIPP). Segundo Marilda Lipp, o stress
é um processo, e não uma reação única.
Diante do
evento estressor, que mobiliza o organismo através de mudanças
bioquímicas para o enfrentamento da situação e preservação da
vida, se a situação se resolve, e no tema aqui abordado, o medo por
exemplo, é superado, o organismo volta à seu equilíbrio natural,
ou homeostase. Mas se a situação persiste, instala-se então um
processo no qual, o organismo que estava numa primeira fase de
stress, a fase de alerta, “que contribui para maior produtividade
no ser humano” (LIPP) e que nesta fase podemos considerar um stress
bom, segue adentrando a outras fases de mobilização de mais
energias na tentativa de resistir ao elemento estressor - o medo. O
stress segue então para etapas mais avançadas do processo nas quais
as defesas do organismo começam a ceder e ele já não dá mais
conta de resistir e recobrar a homeostase. O organismo vai sofrendo
desgaste generalizado com consequências diversas como por exemplo,
impacto na imunidade e a manifestação de doenças diversas de cunho
físico e mental. Segundo Lipp, pode ocorrer a morte como resultado
final à tentativas prolongadas de resposta do organismo a um stress
que perdura por longo período.
A pessoa
sob stress sente o impacto deste processo em várias facetas da sua
vida: no trabalho, na família e demais relações afetivas e
sociais. Conforme Lipp, “No âmbito psicológico e emocional do ser
humano, o stress excessivo produz cansaço mental, dificuldade de
concentração, perda de memória imediata, apatia e indiferença
emocional. A produtividade sofre quedas e a criatividade fica
prejudicada. Autodúvidas começam a surgir em virtude da percepção
do desempenho insatisfatório. Crises de ansiedade e humor depressivo
se seguem. A libido fica reduzida e os problemas de ordem física se
fazem presentes. Nestas condições a qualidade de vida sofre um dano
bastante pronunciado e frequentemente os pacientes, nesta situação,
relatam 'vontade de fugir de tudo'. ” (LIPP)
Mas o medo
não é negativo apenas quando ele é vivenciado de modo demorado.
Ele é negativo também quando decorre desnecessariamente na vida,
quando é ilusório. Há situações nas quais o medo é provocado
por uma distorção da percepção. Nestes casos ele não seria
necessário, mas acontece muitas vezes pela supervalorização de
algo, ou pela pressuposição de algo que realmente não existe, mas
passou a existir pela percepção distorcida das coisas, das pessoas
ou das relações. Passou a existir na mente da pessoa. Passou a
afetar suas emoções, suas ações e sua vida.
Uma das
formas possíveis desse afetamento é a paralisação na vida ou até
mesmo, em alguns casos, da própria vida. É nestes casos que digo
que o medo encolhe. Metaforicamente falando, ele
pode encolher a expressão de pensamentos, a manifestação de
afetividade, o progresso na carreira profissional, a construção de
novos projetos de vida, a realização de sonhos. Nestes
casos, o medo muitas vezes vem acompanhado de preocupação. Uma
ocupação e sofrimento antecipados decorrentes de sentimentos e
pensamentos de que algo ruim ou catastrófico pode vir a acontecer. O
problema é que, a vida da pessoa, sua qualidade de vida, e muitas
vezes suas relações são afetadas por essa pre-ocupação, que as
vezes, também não seriam necessárias, como por exemplo nos casos
de percepção distorcida da realidade.
A boneca
encolhida que comprei, faz-me lembrar que a
pessoa encolhida fica muito menor do que o seu tamanho real. A
pessoa encolhida fica menor do que realmente é, e
assim é que se coloca na vida.
O medo encolhe. Por isso para seguir a diante é necessário
buscar superá-lo para poder desencolher-se e seguir em frente na
vida.
Enfrentar
os seus medos e aprender a lidar com eles, nem sempre é
fácil. É preciso coragem. Mas
de fato, viver e não apenas sobreviver enquanto se está vivo,
exige ousadia, e o enfrentamento do medo, muitas vezes nos
mostra, que aquele sofrimento por ele causado era desnecessário,
possibilitando uma renovação da pessoa ao superar aquilo que lhe
paralisava, bem como melhores relacionamentos e uma melhor qualidade
de vida.
Flávia Diniz
Roldão Psicóloga, Pedagoga e Teóloga. Psicoterapeuta individual, de
casais e familias. Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento
humano. Contato:flaviaroldao@gmail.com
LIPP, M. E.
N. Mecanismos neuropsicofisiológicos do stress. In: LIPP, M. E. N.
Mecanismos neuropsicofisiológicos do stress: teoria e
aplicações clínicas. São paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
Indicado ao Óscar 2013
em oito categorias, “O lado bom da vida” é um filme sem grandes
fatos extraordinários, porém, com uma história muito bem narrada,
e personagens instigantes e bem interpretados. Aborda de modo central
os temas do divórcio, transtorno mental, perdas e diferentes tipos
de lutos, culminando com a temática da reinvenção da vida.
O casal Pat e Dolores
Solitano, são os pais de Pat Solitano Jr, ator que faz o papel
principal, e que como seu pai, possivelmente sofre de Transtorno
Bipolar (diz-se aqui “possivelmente”, pois o filme não aborda
isso explicitamente). Pat Jr, após vivenciar uma experiência de
traição da esposa Nikki,, tem um acesso de fúria e é internado em
um hospital psiquiátrico. Após alguns meses Dolores, a mãe,
consegue sua liberação do hospital, levando-o de volta para a casa
sob custódia. Quando Pat volta, resolve ir novamente ao encontro da
ex-mulher, negando para si mesmo
a nova realidade instalada na relação após o episódio da
traição, em tentativas desesperadas de se reaproximar da ex-mulher.
O filme caracteriza
bem, como momentos de grande stress podem expor
vulnerabilidades pessoais, exacerbando alguns comportamentos e
impulsionando a outros, que em situações normais possivelmente não
se manifestariam. Também caracteriza muito bem, o contexto de vida e
impacto da perda de um relacionamento afetivo na vida das pessoas,
não apenas na atuação de Pat, mas também na de Tiffany, uma moça
de temperamento forte e comunicação direta, que ele conhece quando
sai do hospital, e que tal como ele, está lidando com a
experiência de perda e
vivenciando um momento de luto.
A psicóloga Terezinha
Féres-Carneiro ao estudar a separação conjugal, destaca que, assim
como “o casamento implica na construção de uma nova identidade
para os cônjuges … no processo de separação, a identidade
conjugal, construída no casamento, vai aos poucos se desfazendo,
levando os cônjuges a uma redefinição
de suas identidades individuais”. E citando Caruso, essa
mesma pesquisadora alerta: “A separação é uma das mais dolorosas
experiências pelas quais pode passar um ser humano, é um processo
complexo, vivido em diferentes etapas
e em diferentes níveis,
ou seja, nos pensamentos secretos de cada membro do casal, no diálogo
entre eles e na explicitação para o contexto social que os
circunda.”
Se Tiffany estava
vivendo um luto por morte, Pat estava vivendo um luto pela perda da
esposa e do casamento idealizado. Também neste sentido Féres
Carneiro ilumina a compreensão do processo ao lembrar que “estudar
a separação amorosa significa estudar a
presença da morte na vida.” Ainda lembrando Caruso, esta
psicóloga explicita que “na separação há uma sentença de morte
recíproca: 'o outro morre em
vida, mas morre dentro de mim... e eu também morro
na consciência do outro.”
Nessa fase difícil, a
promoção da saúde emocional é
fundamental. Especialmente se considerarmos os dados de outro
pesquisador na área da morte e luto, Colin Murray Parkes, que indica
que o stress causado pelo luto pode, de alguma forma, predispor à
maior vulnerabilidade à manifestações de doenças e maior risco de
morte no período de enlutamento..
No filme, Pat e Tiffany
encontram a benção de
se conhecerem e iniciarem uma amizade marcada por profundo apoio
mútuo (que posteriormente desembocará em um relacionamento
amoroso de casal). A amizade como importante fator de saúde mental,
já foi apontada por estudiosos tais como, Tom Rath em seu livro “O
poder da amizade”, e Klaus Manhart em seu artigo “Nada como um
bom amigo”. Consideramos que o filme destaca com beleza e
concretude os benefícios dessa relação de amizade para ambos.
Relação esta que aos poucos vai se transformando numa relação
amorosa.
Neste sentido,
lembramos o psicólogo Paolo Menghi, ao ensinar-nos que “uma
relação de casal pode representar para os dois membros que a
compõem, a forma de
psicoterapia mais eficaz (…) uma oportunidade
incrível de evolução individual.” Sendo que, “um dos
objetivos fundamentais de uma relação de casal consiste em
favorecer o processo evolutivo
de seus participantes.”
Tanto o luto por morte
do companheiro, ou pelas perdas advindas de uma experiência de
divórcio, acabam por colocar os ex-cônjuges, e as vezes as demais
pessoas da família, em uma diferente
etapa do ciclo vital. No caso das pessoas que passam pela
experiência da separação e divórcio, Carter e Macgoldrick
destacam que “existem modificações cruciais no status relacional
e importantes tarefas emocionais
que precisam ser completadas pelos membros da família que se
divorcia para que eles possam prosseguir
desenvolvimentalmente. (…) Cada parceiro deve recuperar
esperanças, sonhos, planos e expectativas que foram investidos nesse
cônjuge e nesse casamento.” No filme, vemos a necessidade de Pat
cumprir essa função com relação Nikki, para poder libertar-se e
seguir adiante.
Carter e Macgoldick
lembram que o período médio avaliado por elas em sua experiência
clínica, e corroborado por outros pesquisadores, que uma pessoa ou
família leva, com grande esforço, para reajustar-se à sua nova
situação e prosseguir adiante para a próxima etapa do ciclo de
vida (incluindo ou não uma experiência de recasamento) é de no
mínimo 2 anos. E mais ou menos esse mesmo período de tempo elas
consideram necessário na adaptação, e construção de uma nova
estrutura no caso de recasamento. E alertam: “As famílias em que
as questões emocionais do divórcio não estão adequadamente
resolvidas podem permanecer
emocionalmente paralisadas por anos, se não por gerações.”
No filme, Pat que lutou
grandemente pela oportunidade de se reaproximar de Nikki, quando teve
essa oportunidade, já estava tão profundamente envolvido pelo
apoio, companheirismo e cumplicidade com Tiffany, que opta por
investir na nova relação, abandonando as ilusões referentes ao
primeiro relacionamento que já anteriormente não havia ido adiante.
Neste momento, a trama da película chega ao fim. Os expectadores não
sabem como essa história seguiria. Contudo, na vida real as
terapeutas de família Carter e Macgoldrick, chamam a atenção para
o processo emocional envolvido pelo par amoroso na etapa seguinte do
ciclo de vida, que pode implicar no recasamento: “consiste em
lutar com os medos relativos ao investimento em um novo
casamento e numa nova família, os próprios medos da pessoa, os
medos do novo cônjuge e os medos dos filhos (de um ou de ambos os
cônjuges); lidar com as reações hostis ou de perturbação dos
filhos, das famílias ampliadas e do ex-cônjuge, lutar com a
ambiguidade da nova estrutura, papéis e relacionamentos familiares
(…)” dentre outros fatores. Elas chamam a atenção para o
desafio de inventar uma nova
forma de estrutura familiar e aceitar
a complexidade da nova forma.
Finalizando essa
análise do filme, é importante destacar ainda a concretude com que
o filme caracteriza o profundo sentimento
de dor que pode marcar o rompimento de uma relação
afetiva nas separações e divórcios, com implicações inclusive
para as Famílias de Origem envolvidas, aspecto também muito bem
ilustrado no filme. A dor pode ganhar contornos especiais, principalmente quando acompanhada por traição inesperada, como no
caso de Pat. Dois marcos deixam isso bem pautados na trama: a
dificuldade de lidar com as lembranças, e o comportamento agressivo
daí decorrido.
O fato de Pat ficar
absurdamente descontrolado e furioso quando escuta a música que
marcou o seu relacionamento amoroso com Nikki e também a experiência
de flagrante de traição, é um dos pontos fortes do filme. Chama a
atenção o reviver das emoções negativas por ele, ao escutar a
música tocar, com tal intensidade, sentindo-se ele absolutamente
“tomado” pelas emoções, gerando algum sentimento que acaba
sendo expressado em forma de grande agressividade. Neste momento é
como se a emoção fosse maior do que ele, e se apoderasse de sua
pessoa de tal forma que perde o controle. Embora em diferentes
níveis, cabe aqui destacar que não é incomum, que nas situações
de separação as memórias “fantasmáticas do passado”
eventualmente tornem a visitar as pessoas, e por vezes as memórias e
sensações chegam a apoderarem-se delas. Daí o grande auxílio que
se pode obter de um processo psicoterapêutico que possa auxiliar a
pessoa no enfrentamento dessas emoções, e na lida com suas
memórias, com vistas à superação e não paralisação de seu
desenvolvimento e vida.
Para Parkes, “a dor
do luto é talvez o preço que pagamos pelo amor, o preço do
compromisso. Ignorar esse fato ou fingir que não é bem assim, é
cegar-se emocionalmente, de maneira a ficar despreparado para as
perdas que irão inevitavelmente ocorrer em nossa vida, e também
para ajudar os outros a enfrentar suas próprias perdas.” Tal ideia
faz lembrar um trecho de um poema cuja autoria tem sido atribuida a
Soren Kiekegaard que diz: “Expor seus sentimentos é arriscar-se a
expor seu eu verdadeiro. Amar é arriscar-se a não ser amado. Mas...
é preciso correr riscos. Porque o maior azar da vida é não
arriscar nada... Pessoas que não arriscam, nada fazem, nada são.
Podem estar evitando o sofrimento e a tristeza. Mas assim não podem
aprender, sentir, crescer, mudar, amar, viver... (…) Arriscar-se é
perder o pé por algum tempo. Não se arriscar é perder a vida... “
REFERÊNCIAS
CARTER, B. e
MCGOLDRICK, M. As mudanças no ciclo de vida familiar. In: CARTER, B.
e MCGOLDRICK, M. As mudanças no ciclo de vida familiar. Porto Alegre
Artmed, 1995.
FÉRES-CARNEIRO, T.
Separação: o doloroso processo de dissolução da conjugalidade.
In: Estudos de Psicologia (Natal). v.8, n. 3. Natal: RN,
set/dez.,2003
“...Ver a imaginación no un divertimiento caprichoso del cerebro, (...) sino como una función vitalmente necesaria”
(Vygotsky)
O Russo Lev Semyonovitch Vygotsky é
atualmente um dos teóricos mais influentes na área da Educação e
da Psicologia. Considerado o pai da Psicologia Histórico-Cultural,
influenciou muitos outros teóricos e pesquisadores que continuaram a
desenvolver estudos a partir das idéias que foram lançadas por ele,
mas que devido a sua morte prematura, aos 38 anos de idade, não
foram totalmente desenvolvidas (GOZÁLEZ REY, 2001).
Ele teve passagem por várias áreas
do conhecimento, tais como o direito, a medicina, a educação, a
arte (especialmente a literatura e o teatro). Atuou como professor,
filólogo, crítico literário e pesquisador, dentre outras
atividades (COLE & SCRIBNER, 1989; LURIA,
1989; BRUNER, 1991).
Escreveu sobre muitos assuntos
referentes ao ser humano, dentre eles, “a imaginação”.
Entende que a imaginação tem um
aspecto positivo e construtivo. Ela é o princípio
para a criação de todo o novo na vida cultural, e para a
expansão dos conhecimentos. Ele
escreve:
(...)
La imaginación, como base de toda actividad creadora, se manifiesta
por igual en todos los aspectos de la vida cultural posibilitando la
creación artística, científica y técnica. En este sentido,
absolutamente todo lo que nos rodea y ha sido creado por la mano del
hombre, todo el mundo de la cultura, a diferencia del mundo de la
naturaleza, todo ello es producto de la imaginación. (1990)
Em seu livro “La imaginación y el arte en la
infancia”, ele valoriza
a imaginação como sendo uma atividade importantíssima da mente
humana. Se refere a ela como uma
“função vitalmente necessária” e de enorme
complexidade.
Explica que há duas concepções
distintas da imaginação.
Uma concepção vulgar (do senso comum)
que entende por imaginação - o irreal, aquilo que não se ajusta à
realidade e que portanto, necessita de um valor prático.
A
outra, é a concepção científica que a Psicologia faz da
imaginação, como uma atividade criadora e construtiva do cérebro
humano.
No entender da psicologia
histórico-cultural, nosso cérebro é dotado de duas atividades: uma
atividade conservadora – a memória; e uma atividade combinatória,
criativa, construtiva –a imaginação.
A imaginação utiliza-se da memória para suas construções, e “toda
atividade humana que não se limita a reproduzir acontecimentos e
impressões vividas, pertence a essa função criadora ou
combinatória” operada pela imaginação.
Desse modo, é possível
perceber que é essa atividade do cérebro que leva o homem a estar
voltado para o futuro, sendo capaz de novas criações, construções
e descobertas, proporcionando o seu desenvolvimento e o da sociedade.
Referências:
BRUNER, J. S. Introdução. In:
VYGOTSKY, L. S. Pensamento e
Linguagem. 3º ed. São
Paulo: Martins Fontes, 2001.
COLE, M. & SCRIBNER, S.
Introdução. In: VYGOTSKY, L. S. A
formação social da mente.
3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
GONZÁLEZ REY, F.
Vygotsky:
presencia y continuidad de su pensamiento. In:
Ideasapiens, 2001. Disponível em:
www.ideasapiens.com/autores/Vygotsky/
Acessado em 26/05/02.
LURIA, A. R. Nota Biográfica sobre L.
S. Vygotsky. In: VYGOTSKY, L. S. A
formação social da mente.
3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
VYGOTSKY, L. S. La
imaginación y el arte en la infancia.
2 ª ed. Madrid: Ediciones AKAL S. A , 1990.
Flávia Diniz Roldão Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias. Trabalha com Arteterapia e
desenvolvimento humano. Contato:flaviaroldao@gmail.com
Reflexões
a partir de um diálogo com ideias de Gilberto Safra
e os filmes
“O
EXÓTICO HOTEL MARILGOLD” e "SETE VIDAS”
Se
existe uma certeza que podemos ter nessa vida, é a de que tudo muda.
As coisas boas passam, infelizmente. As coisas ruins também, e isso
é muito bom. Essa é a certeza que podemos ter nessa vida, como
cantavaClara Nunes, a de que “amanhã há de ser outro dia”. Em
linguagem filosófica diria Heráclito (540 a.C - 470 a.C.), “ninguém
se banha duas vezes na mesma água”.
O
filme “O Exótico Hotel Marigold” discute belissimamente essa
realidade humana: tudo passa. E aborda a importância do ser humano
saber reinventar outras possibilidades de si ao longo da existência.
Ele discute o tema do envelhecimento, da morte e das perdas da vida.
Também trata o tema da reinvenção da vida, da gratidão humana
pelas coisas simples das quais se pode desfrutar ao longo de um dia,
das escolhas, e os ganhos que podemos obter por caminhos as vezes até
inesperados. Fala de histórias de vida, trazendo a história
daqueles que tiveram o privilégio de envelhecer. Conta como sete
pessoas bastante diferentes lidam de modo bastante peculiar com os
temas anteriormente mencionados. São realidades diversas de
construção da velhice. O autor expressa na tela aquilo que a vida
demonstra todos os dias, e que os teóricos escrevem atualmente em
suas obras: há diferentes formas de envelhecer, mesmo quando se está
em um mesmo contexto de vida.
Quando
abordamos o fundamento do modo de ser da vida e da existência humana
- “as mudanças”- , conjuntamente precisamos destacar o que vem
junto: “os ganhos e as perdas”. Pois toda mudança implica sempre
inevitavelmente, em ganhos e perdas. Claro que se os ganhos advindos
dela foram maiores dos que as perdas, dizemos na maioria das vezes
que a mudança foi boa. Mas pode ocorrer noutras vezes de as perdas
serem muito superior aos ganhos obtidos, e nestes casos, as mudanças
costumam ser observadas como difíceis e até mesmo negativas.
Os
serem humanos conhecem a impermanência da vida, mas não conseguem
viver sem a ilusão de sua permanência. Por exemplo, todos
morremos um pouco a cada novo dia. Porém, não nos damos conta disso, e
quando por algum motivo, em um certo momento de lucidez nos assalta a
consciência da morte e do processo de envelhecimento, as pessoas se
abalam. A maioria de nós prefere viver na ilusão e no esquecimento
destes fatos no embalo do cotidiano, ainda que saibamos que todos
estamos condenados a essa trajetória existencial.
Se
há algo que iguala a todos os seres humanos, ricos ou pobres,
intelectuais ou iletrados, com mais ou menos idade, é o fato de que enquanto vivemos todos estamos condenados ao envelhecimento contínuo e à morte
certa. O que difere é a forma como cada qual lida e dá conta
dessa certeza existencial.
Gilberto
Safra, ao abordar em uma aula o tema “Maturidade e Morte”1,
destaca a importância dos psicólogos clínicos compreenderem as
diferentes formas da morte aparecer no horizonte da existência ao
longo do ciclo vital, para poder ajudarem seus pacientes a lidarem com ela segundo a demanda do momento na psicoterapia. Para ele a morte
aparece com destaque em alguns momentos do ciclo vital, os quais
destacaremos aqui, ao menos 3 momentos principais. Como “Agonia
Impensável” ao bebê ao qual falta o holding no início da vida.
Como “Experiência Sociocultural", referindo-se à pessoa jovem/adulta que não
consegue fazer uma inscrição ou entrada comunitária no campo
sociocultural, não tendo uma participação efetiva de cooperação
na comunidade e na vida social através de sua vocação, o que não
lhe possibilita realizar-se socioculturalmente. E ainda, no final da
vida, na velhice, quando a morte aparece sobretudo no "registo
existencial", claramente demarcada com a ideia de limite de tempo para
a vida, e é vislumbrada no próprio projeto de vida da pessoa.
Sobre
a primeira inscrição da morte na vida, não abordaremos aqui neste
texto, visto que ela aborda a infância, fase que não é de
interesse na presente reflexão. O leitor interessado deverá remeter-se ao
trabalho de Safra1 para aprofundar o assunto.
Quanto
ao segundo momento em que a morte costuma aparecer no ciclo vital, é
já na etapa do jovem adulto, quando através de sua escolha
vocacional, no exercício de uma atividade na vida, o jovem por algum motivo, não
consegue entrada para servir à sua comunidade e à sociedade, e não
consegue realizar-se enquanto pessoa. Nessa etapa, quando por algum
fator ele é impedido ou sente-se impossibilitado de dar sua
contribuição social efetiva, é como se ele morresse socialmente.
Essa morte é vivida no campo sociocultural. Essa forma como os
outros vêm a contribuição de um jovem ou adulto à comunidade ou
sociedade através de uma vocação, é segundo Safra,
importantíssima. Sendo que a não realização de si nesta dimensão
é vivida efetivamente como uma morte. Uma morte não a partir da
interioridade, mas sim do espaço sociocultural. E a não vivência
desta experiência de contribuição social e cultural à comunidade,
nesta etapa da vida, pode vir a atormentar ou pedir uma revisão
posterior, na etapa seguinte, na terceira idade.
Nesta
fase, segundo Safra, realiza-se uma “contabilidade existencial”,
é uma etapa de ponderação (revisão), reorganização, e decisão.
Uma fase na qual, segundo ele, se recolocam as questões da potência,
da impotência e da onipotência. Onde o perdão é um tema
absolutamente essencial, e o seu reverso, o ressentimento,
pode aparecer voltado para o outro, para a vida, ou para si mesmo (um
ressentimento ligado às questões que não foram resolvidas). Para
ele, as pessoas têm um encontro marcado com as questões
significativas às quais elas foram “empurrando com a barriga”,
mas que nesta etapa da vida, não há mais tempo para isso.
Safra
destaca o fato de que resolver qualquer ressentimento para consigo,
com o outro e com a vida, ligado à sua história de vida e
realização pessoal, é fundamental, pois, quando isso não ocorre,
não há possibilidade da pessoa realizar-se por procuração,
algo tão fundamental nesta etapa da vida, bem como, da pessoa
efetivamente tornar-se avó ou avô. Antes pelo contrário, a pessoa
ressentida adota uma postura de competição com as gerações mais
novas, e não conseguem também outorgar às gerações mais jovens
a possibilidade de realização. Outra forma de autorealização é ainda, a possibilidade de realizarem-se
em novos projetos, já que os antigos, não foram possíveis, e
precisam ser revisados ou descartados.
Quando
abordamos a possibilidade de realização por procuração é bom
esclarecer do que se trata. Segundo Safra, as pessoas idosas têm a
possibilidade de se realizarem através das gerações mais novas,
buscando caminhos de vida que as possibilite auxiliar os mais jovens
em sua autorealização. Assim os idosos realizam-se por identificação ou procuração. Isso acontece por exemplo,
quando os idosos liberam os mais jovens para a sua autorealização,
em questões nas quais eles mesmos não conseguiram libertar-se de
amarras as quais os impediram de realizarem-se enquanto pessoa. Por
exemplo, se a pessoa não conseguiu realizar-se afetivamente por
amarras e tabus familiares que o prendiam, liberam as gerações mais
novas destes tabus visando a sua realização. Ou ainda, a pessoa que
não conseguiu estudar porque precisava trabalhar, e agora
possibilita que seu neto que deseja estudar em tempo integral o faça,
ajudando na realização de seu sonho que exige estudos em tempo
integral. Mas para que essa possibilidade de realização por
procuração ocorra, segundo Safra, é necessário que a pessoa
realize uma aceitação de sua condição, e possa lidar com a
questão do sentido da vida. Pois da mesma forma que para o
bebê no início da vida o colo como holding é fundamental, para o
idoso, isso é dado pelo sentido existencial.
O
filme “O Exótico Hotel Marigold” aborda de modo bastante
aprofundado e realista estes aspectos acima destacados, servindo como
uma belíssima ilustração destes conceitos.
Segundo
Safra, quando o idoso trabalha essa questão dos ressentimentos
quanto aos desejos de realização passados, a aceitação de sua
condição atual, a possibilidade de autorrealização por
procuração, o trabalho de suas questões significativas de
vida, dando atenção à questão crucial desta fase da vida que
é: “O que me levaria a estar pronto para morrer?” Quando
ela exercita o perdãoe lida com sua“contabilidade
existencial”, suas questões de potência, impotência e
onipotência, ela tem a possibilidade de lidar e lida (muitas
vezes), com a morte como término (o fim de um percurso), e não como
interrupção.
Para
ele a morte tem estas duas formas de aparição na vida: comointerrupção, ou como ocompletar da vida. E isso
independe da idade. Trata-se de uma questão de término de uma
experiência, de um percurso. Essa ideia, também fica muito bem
ilustrada no filme anteriormente citado, na morte do único idoso que
morre na história, Graham.
Outro
filme que aborda o tema da morte, mas agora a morte como interrupção,
é o filme Sete vidas. Essa película aborda o tema do suicídio do
personagem principal, Bem Thomas. Neste filme também é possível
encontrar boas ilustrações para várias das ideias trabalhadas por
Safra na obra referida, como por exemplo, a sua ideia de que “todas
as pessoas anseiam morrer em companhia”. No filme, chama a atenção que
mesmo neste caso de suicídio, representado por Bem Thomas, ele
cerca-se de pessoas às quais decide doar seus órgãos após a morte.
Outra
possibilidade de ilustração das ideias de Safra através do filme
Sete Vidas, é a ideia de que é possível a convivência com a
instabilidade sem que isso signifique impotência e sim, competência
e manutenção da integridade existencial. Contudo, no filme a
ilustração é possível através de um exemplo que mostra o aspecto
negativo desta ideia, ou seja, como Bem Thomas, não conseguiu
manter suaintegridade existencial diante de um sentimento de
culpa pelo qual fora tomado. Em sua palestra, Safra refere-se a essa ideia de
preservação da integridade existencial, dando o exemplo de quando a
experiência de instabilidade marca o corpo de alguém. Quem já
trabalhou em reabilitação sabe - diz ele, da importância de
ajudar a pessoa a perceber que a sua integridade como ser humano não
foi atingida apesar de ter sido seu corpo atingido. Pois a pessoa-
diz ele- pode fazer uma ruptura a partir daquela experiência
corporal, e entrar num funcionamento melancólico. Justamente o que
ocorreu com Bem Thomas, só que no filme, não foi devido a uma
experiência de doença que marcou o seu corpo, mas a culpa, pela
morte de sua esposa num acidente automobilístico no qual ele estava
diretamente envolvido, que marcou a sua alma.
Pensar
a morte, as perdas da vida, a culpa, as doenças que marcam o corpo e
a alma, as escolhas que são realizadas na vida, e com isso as
mudanças advindas com as consequentes perdas e ganhos, não é uma
empreitada simples, nem fácil, porém essencial aos profissionais
que trabalham com gente, e que pensam a vida. Indico estes dois
filmes e o DVD da palestra de Gilberto Safra para que possam ser
assistidos e refletidos.
Flávia Diniz Roldão Psicóloga, Pedagoga e Teóloga. Psicoterapeuta
individual, de casais e familias. Trabalha com Arteterapia e
desenvolvimento humano. Contato:flaviaroldao@gmail.com