Reflexões
a partir de um diálogo com ideias de Gilberto Safra
e os filmes
“O
EXÓTICO HOTEL MARILGOLD” e "SETE VIDAS”
Se
existe uma certeza que podemos ter nessa vida, é a de que tudo muda.
As coisas boas passam, infelizmente. As coisas ruins também, e isso
é muito bom. Essa é a certeza que podemos ter nessa vida, como
cantava Clara Nunes, a de que “amanhã há de ser outro dia”. Em
linguagem filosófica diria Heráclito (540 a.C - 470 a.C.), “ninguém
se banha duas vezes na mesma água”.
O
filme “O Exótico Hotel Marigold” discute belissimamente essa
realidade humana: tudo passa. E aborda a importância do ser humano
saber reinventar outras possibilidades de si ao longo da existência.
Ele discute o tema do envelhecimento, da morte e das perdas da vida.
Também trata o tema da reinvenção da vida, da gratidão humana
pelas coisas simples das quais se pode desfrutar ao longo de um dia,
das escolhas, e os ganhos que podemos obter por caminhos as vezes até
inesperados. Fala de histórias de vida, trazendo a história
daqueles que tiveram o privilégio de envelhecer. Conta como sete
pessoas bastante diferentes lidam de modo bastante peculiar com os
temas anteriormente mencionados. São realidades diversas de
construção da velhice. O autor expressa na tela aquilo que a vida
demonstra todos os dias, e que os teóricos escrevem atualmente em
suas obras: há diferentes formas de envelhecer, mesmo quando se está
em um mesmo contexto de vida.
Quando
abordamos o fundamento do modo de ser da vida e da existência humana
- “as mudanças”- , conjuntamente precisamos destacar o que vem
junto: “os ganhos e as perdas”. Pois toda mudança implica sempre
inevitavelmente, em ganhos e perdas. Claro que se os ganhos advindos
dela foram maiores dos que as perdas, dizemos na maioria das vezes
que a mudança foi boa. Mas pode ocorrer noutras vezes de as perdas
serem muito superior aos ganhos obtidos, e nestes casos, as mudanças
costumam ser observadas como difíceis e até mesmo negativas.
Os
serem humanos conhecem a impermanência da vida, mas não conseguem
viver sem a ilusão de sua permanência. Por exemplo, todos
morremos um pouco a cada novo dia. Porém, não nos damos conta disso, e
quando por algum motivo, em um certo momento de lucidez nos assalta a
consciência da morte e do processo de envelhecimento, as pessoas se
abalam. A maioria de nós prefere viver na ilusão e no esquecimento
destes fatos no embalo do cotidiano, ainda que saibamos que todos
estamos condenados a essa trajetória existencial.
Se
há algo que iguala a todos os seres humanos, ricos ou pobres,
intelectuais ou iletrados, com mais ou menos idade, é o fato de que enquanto vivemos todos estamos condenados ao envelhecimento contínuo e à morte
certa. O que difere é a forma como cada qual lida e dá conta
dessa certeza existencial.
Gilberto
Safra, ao abordar em uma aula o tema “Maturidade e Morte”1,
destaca a importância dos psicólogos clínicos compreenderem as
diferentes formas da morte aparecer no horizonte da existência ao
longo do ciclo vital, para poder ajudarem seus pacientes a lidarem com ela segundo a demanda do momento na psicoterapia. Para ele a morte
aparece com destaque em alguns momentos do ciclo vital, os quais
destacaremos aqui, ao menos 3 momentos principais. Como “Agonia
Impensável” ao bebê ao qual falta o holding no início da vida.
Como “Experiência Sociocultural", referindo-se à pessoa jovem/adulta que não
consegue fazer uma inscrição ou entrada comunitária no campo
sociocultural, não tendo uma participação efetiva de cooperação
na comunidade e na vida social através de sua vocação, o que não
lhe possibilita realizar-se socioculturalmente. E ainda, no final da
vida, na velhice, quando a morte aparece sobretudo no "registo
existencial", claramente demarcada com a ideia de limite de tempo para
a vida, e é vislumbrada no próprio projeto de vida da pessoa.
Sobre
a primeira inscrição da morte na vida, não abordaremos aqui neste
texto, visto que ela aborda a infância, fase que não é de
interesse na presente reflexão. O leitor interessado deverá remeter-se ao
trabalho de Safra1 para aprofundar o assunto.
Quanto
ao segundo momento em que a morte costuma aparecer no ciclo vital, é
já na etapa do jovem adulto, quando através de sua escolha
vocacional, no exercício de uma atividade na vida, o jovem por algum motivo, não
consegue entrada para servir à sua comunidade e à sociedade, e não
consegue realizar-se enquanto pessoa. Nessa etapa, quando por algum
fator ele é impedido ou sente-se impossibilitado de dar sua
contribuição social efetiva, é como se ele morresse socialmente.
Essa morte é vivida no campo sociocultural. Essa forma como os
outros vêm a contribuição de um jovem ou adulto à comunidade ou
sociedade através de uma vocação, é segundo Safra,
importantíssima. Sendo que a não realização de si nesta dimensão
é vivida efetivamente como uma morte. Uma morte não a partir da
interioridade, mas sim do espaço sociocultural. E a não vivência
desta experiência de contribuição social e cultural à comunidade,
nesta etapa da vida, pode vir a atormentar ou pedir uma revisão
posterior, na etapa seguinte, na terceira idade.
Nesta
fase, segundo Safra, realiza-se uma “contabilidade existencial”,
é uma etapa de ponderação (revisão), reorganização, e decisão.
Uma fase na qual, segundo ele, se recolocam as questões da potência,
da impotência e da onipotência. Onde o perdão é um tema
absolutamente essencial, e o seu reverso, o ressentimento,
pode aparecer voltado para o outro, para a vida, ou para si mesmo (um
ressentimento ligado às questões que não foram resolvidas). Para
ele, as pessoas têm um encontro marcado com as questões
significativas às quais elas foram “empurrando com a barriga”,
mas que nesta etapa da vida, não há mais tempo para isso.
Safra
destaca o fato de que resolver qualquer ressentimento para consigo,
com o outro e com a vida, ligado à sua história de vida e
realização pessoal, é fundamental, pois, quando isso não ocorre,
não há possibilidade da pessoa realizar-se por procuração,
algo tão fundamental nesta etapa da vida, bem como, da pessoa
efetivamente tornar-se avó ou avô. Antes pelo contrário, a pessoa
ressentida adota uma postura de competição com as gerações mais
novas, e não conseguem também outorgar às gerações mais jovens
a possibilidade de realização. Outra forma de autorealização é ainda, a possibilidade de realizarem-se
em novos projetos, já que os antigos, não foram possíveis, e
precisam ser revisados ou descartados.Quando abordamos a possibilidade de realização por procuração é bom esclarecer do que se trata. Segundo Safra, as pessoas idosas têm a possibilidade de se realizarem através das gerações mais novas, buscando caminhos de vida que as possibilite auxiliar os mais jovens em sua autorealização. Assim os idosos realizam-se por identificação ou procuração. Isso acontece por exemplo, quando os idosos liberam os mais jovens para a sua autorealização, em questões nas quais eles mesmos não conseguiram libertar-se de amarras as quais os impediram de realizarem-se enquanto pessoa. Por exemplo, se a pessoa não conseguiu realizar-se afetivamente por amarras e tabus familiares que o prendiam, liberam as gerações mais novas destes tabus visando a sua realização. Ou ainda, a pessoa que não conseguiu estudar porque precisava trabalhar, e agora possibilita que seu neto que deseja estudar em tempo integral o faça, ajudando na realização de seu sonho que exige estudos em tempo integral. Mas para que essa possibilidade de realização por procuração ocorra, segundo Safra, é necessário que a pessoa realize uma aceitação de sua condição, e possa lidar com a questão do sentido da vida. Pois da mesma forma que para o bebê no início da vida o colo como holding é fundamental, para o idoso, isso é dado pelo sentido existencial.
O
filme “O Exótico Hotel Marigold” aborda de modo bastante
aprofundado e realista estes aspectos acima destacados, servindo como
uma belíssima ilustração destes conceitos.
Segundo
Safra, quando o idoso trabalha essa questão dos ressentimentos
quanto aos desejos de realização passados, a aceitação de sua
condição atual, a possibilidade de autorrealização por
procuração, o trabalho de suas questões significativas de
vida, dando atenção à questão crucial desta fase da vida que
é: “O que me levaria a estar pronto para morrer?” Quando
ela exercita o perdão e lida com sua “contabilidade
existencial”, suas questões de potência, impotência e
onipotência, ela tem a possibilidade de lidar e lida (muitas
vezes), com a morte como término (o fim de um percurso), e não como
interrupção.
Para
ele a morte tem estas duas formas de aparição na vida: como
interrupção, ou como o completar da vida. E isso
independe da idade. Trata-se de uma questão de término de uma
experiência, de um percurso. Essa ideia, também fica muito bem
ilustrada no filme anteriormente citado, na morte do único idoso que
morre na história, Graham.
Outro filme que aborda o tema da morte, mas agora a morte como interrupção, é o filme Sete vidas. Essa película aborda o tema do suicídio do personagem principal, Bem Thomas. Neste filme também é possível encontrar boas ilustrações para várias das ideias trabalhadas por Safra na obra referida, como por exemplo, a sua ideia de que “todas as pessoas anseiam morrer em companhia”. No filme, chama a atenção que mesmo neste caso de suicídio, representado por Bem Thomas, ele cerca-se de pessoas às quais decide doar seus órgãos após a morte.
Outra
possibilidade de ilustração das ideias de Safra através do filme
Sete Vidas, é a ideia de que é possível a convivência com a
instabilidade sem que isso signifique impotência e sim, competência
e manutenção da integridade existencial. Contudo, no filme a
ilustração é possível através de um exemplo que mostra o aspecto
negativo desta ideia, ou seja, como Bem Thomas, não conseguiu
manter sua integridade existencial diante de um sentimento de
culpa pelo qual fora tomado. Em sua palestra, Safra refere-se a essa ideia de
preservação da integridade existencial, dando o exemplo de quando a
experiência de instabilidade marca o corpo de alguém. Quem já
trabalhou em reabilitação sabe - diz ele, da importância de
ajudar a pessoa a perceber que a sua integridade como ser humano não
foi atingida apesar de ter sido seu corpo atingido. Pois a pessoa-
diz ele- pode fazer uma ruptura a partir daquela experiência
corporal, e entrar num funcionamento melancólico. Justamente o que
ocorreu com Bem Thomas, só que no filme, não foi devido a uma
experiência de doença que marcou o seu corpo, mas a culpa, pela
morte de sua esposa num acidente automobilístico no qual ele estava
diretamente envolvido, que marcou a sua alma.
Pensar
a morte, as perdas da vida, a culpa, as doenças que marcam o corpo e
a alma, as escolhas que são realizadas na vida, e com isso as
mudanças advindas com as consequentes perdas e ganhos, não é uma
empreitada simples, nem fácil, porém essencial aos profissionais
que trabalham com gente, e que pensam a vida. Indico estes dois
filmes e o DVD da palestra de Gilberto Safra para que possam ser
assistidos e refletidos.
Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga. Psicoterapeuta individual, de casais e familias. Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato: flaviaroldao@gmail.com
Referências:
Imagens disponíveis em:
Trailers dos filmes:
https://www.youtube.com/watch?v=zXkJW7ar0AE
http://www.livrariaresposta.com.br/v2/produto.php?id=380
http://www.livrariaresposta.com.br/v2/produto.php?id=380



