quinta-feira, 30 de maio de 2013

Trabalho da alma



 
As vezes... quando a alma dói...
Escorrem "lágrimas de diamantes"
 
A areia na concha faz pérola
Estrume pode virar adubo
E planta ressequida encontra novamente o vigor,
tal qual água que hidrata terra árida.
 
É a vida que impulsiona o VIVER
E não apenas se contenta em sobreviver.
É a alma buscando respiração
Desenvolvimento.
 
Não temos "uma vida de estepe"**
E as vezes nos esquecemos disto quando
abrimos mão de perceber o tempo que passa
E a vida escorre por entre os dedos, como água que se vai.


 
NOTAS
 

** "Vida de estepe" expressão usada por um paciente em uma Roda de Conversa em supervisão de Estágios de Psicologia.
Fonte da imagem: http://www.lagrimasdesaopedro.com.br/p/a-obra.html


Quando a alma inflama



 
"Daquilo que eu sei
Nem tudo me deu certeza..." canta Ivan Lins
 
Quando a alma RE-clama
As vezes IN-flama
 
E o que fazer quando a alma inflama?
 
Por que inflamou?
Que espinho na carne entrou?
 
Silêncio... pro-fundo!
 
Abraçar...
Acolher...
Escutar...
Caminhar...
 
Devolver a alma ao mundo
Encharcada de afeto e aceitação.
 
Aprender a esperar, só aprende quem se implica.
Tempo e or-ação
(introspecção e entrega)
 
O caminho se mostra
Mas é preciso ter serenidade e fé para esperar o tempo maturar
 
Tal como
O Verbo
Que no tempo
Certo
Se fez carne
e
Habitou entre nós.
 
 


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Como se constrói um “nós”


Como é bela a vida humana
Cada pessoa com sua exclusividade
Ninguém substitui ninguém, nem jamais substituirá
Quanto a isso seria um desperdício de tempo ter medo
Pois somos absolutamente únicos em nossas peculiaridades
Apesar de sermos parte da humanidade.
Cada relacionamento é absolutamente único.
Uma construção que nunca é unilateral, mas, participativa sempre.
Construído a partir da colaboração mútua de todos os envolvidos
Mutante
Movente
Múltiplo de possibilidades novas todos os dias.
Aproveitamos bem essa possibilidade?
Como uma dança compartilhada
Assim é a interação humana
Feita de gente
Que se sente e se move como gente? Ou como agente?
Agente de que? Agente de quem?
Como se constrói um “nós”?
Tomara que nem sempre, com nós
Mas ao invés disso, com laços e abraços
Como se constrói um nós?
Você já se perguntou: como estamos construindo o NOSSO “nós” ?
Ouvi ontem uma mensagem
Daquelas da melhor qualidade
Lembrava o mensageiroi:
9 são os frutos do espírito:
Amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e temperançaii.
O termo espírito em hebraico é Ruah, e significa “sopro” ou “vida”
Que relação não dará certo se fundamentada nestes frutos, os frutos da “vida” ou do “sopro de vida”? - perguntou.
Quanto a mim,
Ainda mais uma vez vale leva-lo a pensar:
Como se constrói um “nós”?
Como nós, humanidade,
 Estamos construindo o nosso “nós” ?

NOTAS:
iRefere-se ao sermão pregado pelo pastor Edson 
iiGalatas 5
REFERÊNCIAS:
Imagem 1: http://www.tdah-reconstruindoavida.com.br/2012/06/tdahs-de-maos-dadas.html acessada em 23/05/13
Imagem 2: https://www.google.com.br/search?gs_rn=14&gs_ri=psy-ab&tok=y6KOr63_zi-K8HJ21KhxvQ&pq=galatas+5&cp=8&gs_id=w&xhr=t&q=multiplos&bav=on.2,or.r_cp.r_qf.&biw=1093&bih=514&um=1&ie=UTF-8&hl=pt-BR&tbm=isch&source=og&sa=N&tab=wi&ei=qRGkUb-eCI-68wSysoGQDw#um=1&hl=pt-BR&tbm=isch&sa=1&q=m%C3%A3os+dadas+amigos&oq=m%C3%A3os+dadas&gs_l=img.1.3.0l10.401.1846.0.7125.9.4.0.0.0.0.1549.4258.7-2j1.3.0...0.0...1c.1.14.img.nKwjtbDccPE&fp=1&biw=1093&bih=514&bav=on.2,or.r_cp.r_qf.&cad=b&sei=6hSkUfOtL5Ko0AHvsIC4DQ&facrc=_&imgrc=JLe5sk4ZJdH3zM%3A%3Budkk-K2eJj8XgM%3Bhttp%253A%252F%252F3.bp.blogspot.com%252F-3EEE6nxs2-A%252FUR69GMNabmI%252FAAAAAAAAAOQ%252F9RhREcxZ7Zs%252Fs1600%252FImagem-azul-de-formas-de-pessoas-de-maos-dadas-em-volta-a-um-globo-terrestre_01.jpg%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.adessoconsultoria.blogspot.com%252F%3B300%3B227
Imagem 3: https://www.google.com.br/search?gs_rn=14&gs_ri=psy-ab&tok=y6KOr63_zi-K8HJ21KhxvQ&pq=galatas+5&cp=8&gs_id=w&xhr=t&q=multiplos&bav=on.2,or.r_cp.r_qf.&biw=1093&bih=514&um=1&ie=UTF-8&hl=pt-BR&tbm=isch&source=og&sa=N&tab=wi&ei=qRGkUb-eCI-68wSysoGQDw#um=1&hl=pt-BR&tbm=isch&sa=1&q=m%C3%A3os+dadas+amigos&oq=m%C3%A3os+dadas&gs_l=img.1.3.0l10.401.1846.0.7125.9.4.0.0.0.0.1549.4258.7-2j1.3.0...0.0...1c.1.14.img.nKwjtbDccPE&fp=1&biw=1093&bih=514&bav=on.2,or.r_cp.r_qf.&cad=b&sei=6hSkUfOtL5Ko0AHvsIC4DQ&facrc=_&imgrc=PjbeqArDUZy6wM%3A%3B14YPFJgaDHtN8M%3Bhttp%253A%252F%252F1.bp.blogspot.com%252F-38ULtuYmhew%252FTjGQVDJ6x3I%252FAAAAAAAAAGw%252FVPG9qhFoLaI%252Fs1600%252Fhuman-touch_large.jpg%3Bhttp%253A%252F%252Fumaspalavrasamais.blogspot.com%252F2011%252F07%252Fde-maos-dadas.html%3B500%3B332
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Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias.
Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato:
flaviaroldao@gmail.com

domingo, 19 de maio de 2013

O ADULTO (1)




Perguntou: - O que é ser adulto ?
Respondeu: - É ser o que se é. É não negociar a sua identidade por nada, nem ninguém.
-------------------------
“E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU” - Êxodo 3:14
--------------------------------------
“E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”.   Gênesis 1:27

sábado, 18 de maio de 2013

APRENDER A SER - pensando o desenvolvimento humano


 
 
Aprender a ser, também se aprende ?
A ser o que ?
A ser humano...
A ser gente !

 


Não viemos ao mundo com manual de instruções.

Nem sempre somos pessoas fácies de sermos acessadas.

Mas o debruçar-se de um outro semelhante, empático, que nos vê, sempre consegue acessar o mais profundo do nosso ser.

Dizem que o que o ser humano mais deseja é ser desejado.

Penso que o que o ser humano mais deseja é ser visto, como verdadeiramente ele é, sem as distorções dos espelhos projetivos. Ser visto na sua alteridade.

Quando o encontro do EU e TU à moda Buber ocorrem, feridas podem ser curadas, pois o bálsamo DO Encontro é a aceitação do que é visto, e o derramamento de um remédio sarador sobre o ferimento sem raspar-lhe.

De que é feita a vida?

De muitas coisas, e dentre elas, dos Encontros.

Quando há encontros, há um verdadeiro importar-se, preocupar-se com o o outro.

Nas palavras do professor de Artes do Filme: “Importar-se, tem o poder de curar as feridas, Um bálsamo para a dor. A criança se sente querida. Um abraço, um beijo, um afeto aqui e ali. Filho, eu te amo. Se você tem medos, venha aqui. Se você cair, falhar, estarei ao seu lado. Segurança. Carinho.” - “Isso é importar-se, não é ?” - pergunta. E relata em contraposição: “Nas Ilhas Salomão, quando os nativos querem parte da floresta para agricultura eles não cortam as árvores. Eles simplesmente se juntam ao redor delas e gritam xingamentos, e dizem coisas ruins. Em alguns dias as árvores secam e morrem. Elas morrem sozinhas.”

No filme “Como estrelas na terra”, muitas cenas são emocionantes, contudo... a cena em que o professor de artes vai à casa da família do aluno Ishaan, que está tendo dificuldades na escola, percebe o isolamento no qual ele foi colocado, e ao perceber a insensibilidade da família para compreender o real problema, antes de falar pede se pode tomar um copo de água. A cena é comovente!

Muitas vezes, diante das atrocidades da vida, o profissional precisa mesmo parar e... “tomar um copo de água” para recompor-se diante da situação que presencia. E não é só no que toca ao outro que as vezes é preciso parar e pedir água para se recompor.

Eu me pergunto, se muitas vezes quando olhamos bem fundo para nós mesmos, também não temos vontade de pedir ao tempo que pare, para que possamos tomar um copo de água antes prosseguirmos em nossa jornada .

“Por favor, posso tomar uma água?” - um tempo para recompor-se e aliviar o fardo daquilo que o mergulho NO PROBLEMA, seja ele externo ou interno, revela.

No filme, o professor se recompôs, e depois foi em frente com o que precisava ser atendido.

O filme coloca uma profunda lição de vida. É sem a menor dúvida, um dos melhores que já assisti.

Lembrei de um trecho de Rubem Alves ao refletir sobre a película:
 “É isto que amamos no outro,
o lugar vazio que eles abrem para que ali cresçam nossas fantasias.
Buscamos no outro,
não a sabedoria do conselho,
mas o silêncio da escuta;
não a solidez do músculo,
mas o colo que acolhe...
Como seria bom se as pessoas fossem vazias como o céu,
e não tão cheias de palavras,
de ordens,
de certezas.
Só podemos amar as pessoas que parecem com o céu,
onde podemos fazer voar nossas fantasias como se fossem pipas.”
(Rubem Alves)
 
Assista ao filme completo:
 
Referências:
ALVES, rubem. O vazio que amamos. Disponível em: http://passarinhosnotelhado.blogspot.com.br/2012/07/o-vazio-que-amamos.html Acesso em 18 de amio de 2013.

domingo, 12 de maio de 2013

A-COR-DAR e dançar (por :Aquarela)



 

É de experiência profunda que este trata.

Experiência de religare.

Imag-in-ação.



Já imaginastes? – perguntou

Já imaginastes como é uma dança sem fim?


 

Incansavelmente chamada PARTILHA



Tira daqui e move pr'a ali

Passo pr'a cá, e o outro pr'á lá

Dança coordenada

Passo com passo

Rítmo com rítmo

Respiração com respiração

Humanidade com humana-idade

Quebra cabeça cujas peças sempre encaixam.



Algumas partilhas são assim

Não se chamam rotina

Estão anos luz longe do tédio

Se chamam partilha sem fim



Mudo aqui e você muda ali

Encaixo e desencaixo

Pr'a depois encaixar novamente

E as peças nunca caem, nunca saem do lugar

Como trem que nunca descarrilha

Sincronia

A dança não cansa jamais

É dança cria-ativa (CRIATIVA)

Profundamente gerativa, geracional

Como filhos que nascem

Os produtos destas partilhas são

A menina dos olhos da VIDA dos dançarinos

E a dança dura o tempo do regar do jardim da VIDA.




Vida efêmera, passa depressa

Mas a dança dura todo o tempo que dura

Essa efêmera VIDA

E a torna bela

Palatável

Amorosamente acolhedora e afável

Ao ponto de os dançarinos sorrirem espontaneamente pr'a VIDA

Dando a ela um sentido profundo

Bendizendo estarem VIVOS e dançantes.
 
 
 
   

sábado, 11 de maio de 2013

Quando procurando o Outro encontro a mim mesmo

 

Reflexões a partir dos três primeiros capítulos do livro: O Projeto Éden: a busca do Outro mágico. James Hollis, Paulus, 2002. Coleção Amor e Psiquê.



O livro “Projeto Éden” é (desafia-DOR). Desafia à nossa dor. Alerta sobre quantas vezes buscando a felicidade, incoscientemente deposita-mo-la no Outro como nosso salvador, aquele que vai nos “levar de volta para casa” (Hollis, 2002). Toca nossa ferida, lembra-nos da condição humana mútua que habita dois seres em relação. Coloca-nos com os pés no chão, nos devolvendo a consciência. Lembra-nos de que o jardim perdido não pode ser resgatado. Explica Hollis: “todo relacionamento é o anseio por retornar” (op.cit. p.17) uma busca essencialmente religiosa “como atesta a etimologia da palavra 'religião', do latim religare, voltar a ligar, religar.” (ibidem).
 
É só através da experiência da perda que a consciência desperta sobre a impossibilidade e mesmo o absurdo do projeto inicial: ser salvo pelo “Outro” tão humano e tão falível e vulnerável quanto eu. Fardo pesado este que sem nos darmos conta, colocamos sobre o Outro. “A perda repetida do Éden é a condição humana, mesmo que a esperança de recuperá-la, seja nossa principal fantasia” - lembra Hollis (op. cit. p. 60). E alerta: “O amor e o trabalho da alma estão inextrincavelmente entremeados. O Outro não está aqui para cuidar da nossa alma, mas para ampliar nossa experiência dela.” (op. cit., p. 78). E destaca: “Quando o relacionamento não é movido pela NECESSIDADE, mas pela solicitude para com o outro enquanto outro, então estamos verdadeiramente livres para vivenciá-lo. Quando nos libertamos de nossas projeções, abandonamos o projeto 'voltar para a casa', somos livres para amar. Quando somos livres para amar, somos presentes, ao mistério encarnado pelo Outro.” (ibidem).

 

Na tentativa de fugir ao exigente, complexo e duro processo da individuação, projetamos tal desafio no Outro. Mas lembra Hollis: “Ninguém fica mais frustrado do que aquele que lava a roupa do companheiro às custas da sua própria. (p.98). (…) A busca da fusão geralmente provoca vários sintomas. Nossa psiquê sabe o que é certo para nós, sabe o que é necessário para o desenvolvimento. Quando usamos o Outro para fugir da tarefa que nos compete, fazemo-nos de tolos por um tempo, mas a alma não se deixará enganar. Ela expressará seu protesto por meio de doenças físicas, complexos ativados e sonhos agitados. A alma quer sua expressão mais plena (…).” p.97). Ninguém pode fazer aquilo que só você pode realizar.

A sua jornada precisa ser corrida por você mesmo. Assumir a RESPONSABILIDADE pelo seu caminho, as suas escolhas, é tarefa individual, este é o preço do crescimento e condição essencial para o processo de individuação (Hollis, p.95).
 
“Somos viajantes, todos separadamente. (…) Em nossa solidão tornamos agradável a viagem do Outro, que por sua vez faz o mesmo conosco. Embarcamos separadamente e desembarcamos separadamente, e nos dirigimos para nossos objetivos separadamente.” (p. 74). Hollis lembra o poeta checo Rainer Maria Rilke: “Esta é a tarefa mais importante da relação entre duas pessoas: uma deve estar sempre atenta à solidão da outra.” (Rilke apud Hollis, op.cit. p.73), e alerta: “O maior presente que levamos para o relacionamento somos nós mesmos.” (ibidem). Hollis coloca o diálogo entre o Eu e o Outro como a “psicodinâmica que dá orígem e promove o crescimento' (p.70). Não apenas abordando a questão do relacionamento e do amor, o livro trata também de conceitos e ideias sobre o casamento. Usa para falar do casamento a metáfora da conversação, e fala de casamento como relação de profundidade e com caráter de compometimento.

 
Hollis entende que o princípio de toda relação é a projeção, esse voltar-se para o outro, amar no Outro e reconhecer nele, coisas que não reconhecemos em nós mesmos, encantar-mos-nos com ele. Por isso é importante sempre perguntar: “O que isso diz de mim ?” (op. cit. p. 69), “Que parte minha foi projetada, e com que objetivo?” (p.63) - para recuperar a parte de nós mesmos que nele foi projetada, reverter a projeção.
 
 Mas TODA projeção é inconciente, “pois, no momento mesmo em que a pessoa observa 'Fiz projeção', ela já está no processo de recuperá-la. “ (p.41). E cita Jung: “(...) Projeção é sempre o inconsciente ativado que procura expressão.” (Jung apud Hollis, p.64)
 

É útil a descrição que Hollis faz de como detectamos projeções, destacando 3 maneiras (p.63):

1 Existem situações previsíveis em que os complexos, ou projeções , têm probabilidade de serem ativados. De modo geral, toda a esfera da intimidade (…).

2 As projeções podem ser sentidas fisicamente: estômago embrulhado, coração acelerado, mãos suadas e outras sensações são estados somáticos que nos alertam para a probabilidade de projeção (…).

3 A quantidade de energia descarregada é sempre desproporcional à situação (…).
 

A despeito da dor causada pela projeção na fase em que o desgaste dela acontece, Hollis defende a ideia de que relacionamento é questão de transformação:
 
 
“Para quem tem a felicidade de encontrar o amor desinteressado, o relacionamento é transformador. Somos muito mais ricos depois, mesmo com a perda e o conflito, do que éramos antes. Podemos ser agradecidos por essa riqueza. Podemos até bendizer os que nos feriram, pois foram eles que deram a contribuição maior para nossa transformação. Podemos até ama-los deixando que sejam quem são, mesmo enquanto nos debatemos para ser nós mesmos na jornada (…).”
 
 
 
No final do processo iniciado com a projeção que dá início ao relacionamento, temos a possibilidade, se não nos perdermos nos meandros do mal uso poder no processo de reversão, de re-encontrarmos a nós mesmos. Darmos boas vindas de volta à partes de nós até então adormecidas, que poderão ser novamente re-conhecidas, às vezes transformadas, e re-integradas em nós de modo consciente e profundo.

Apesar de belo, tal processo ocorre de modo por vezes difícil, permeado por dor e a necessidade de vencer medos, dentre os quais, o medo de novamente reviver o sentimento do abandono. Contudo, vencer o medo é crucial no processo de se deixar amar. “A capacidade de sofrer a ferida e de aprender adaptar-se a ela é crucial. (…) A questão mais profunda, porém, é se somos nós que temos as feridas ou se são elas que nos têm (p.22).

Já antes lemos nos Evangelhos (cuja palavra significa “Boa Nova, Boa notícia):
“O verdadeiro amor, lança fora todo o medo.”


Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias.
Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.

Contato: flaviaroldao@gmail.com

 
Referências:
HOLLIS, James. O Projeto Éden: a busca do outro mágico. São Paulo: Paulus, 2002.
Imagens :
Facebbok