sábado, 11 de maio de 2013

Quando procurando o Outro encontro a mim mesmo

 

Reflexões a partir dos três primeiros capítulos do livro: O Projeto Éden: a busca do Outro mágico. James Hollis, Paulus, 2002. Coleção Amor e Psiquê.



O livro “Projeto Éden” é (desafia-DOR). Desafia à nossa dor. Alerta sobre quantas vezes buscando a felicidade, incoscientemente deposita-mo-la no Outro como nosso salvador, aquele que vai nos “levar de volta para casa” (Hollis, 2002). Toca nossa ferida, lembra-nos da condição humana mútua que habita dois seres em relação. Coloca-nos com os pés no chão, nos devolvendo a consciência. Lembra-nos de que o jardim perdido não pode ser resgatado. Explica Hollis: “todo relacionamento é o anseio por retornar” (op.cit. p.17) uma busca essencialmente religiosa “como atesta a etimologia da palavra 'religião', do latim religare, voltar a ligar, religar.” (ibidem).
 
É só através da experiência da perda que a consciência desperta sobre a impossibilidade e mesmo o absurdo do projeto inicial: ser salvo pelo “Outro” tão humano e tão falível e vulnerável quanto eu. Fardo pesado este que sem nos darmos conta, colocamos sobre o Outro. “A perda repetida do Éden é a condição humana, mesmo que a esperança de recuperá-la, seja nossa principal fantasia” - lembra Hollis (op. cit. p. 60). E alerta: “O amor e o trabalho da alma estão inextrincavelmente entremeados. O Outro não está aqui para cuidar da nossa alma, mas para ampliar nossa experiência dela.” (op. cit., p. 78). E destaca: “Quando o relacionamento não é movido pela NECESSIDADE, mas pela solicitude para com o outro enquanto outro, então estamos verdadeiramente livres para vivenciá-lo. Quando nos libertamos de nossas projeções, abandonamos o projeto 'voltar para a casa', somos livres para amar. Quando somos livres para amar, somos presentes, ao mistério encarnado pelo Outro.” (ibidem).

 

Na tentativa de fugir ao exigente, complexo e duro processo da individuação, projetamos tal desafio no Outro. Mas lembra Hollis: “Ninguém fica mais frustrado do que aquele que lava a roupa do companheiro às custas da sua própria. (p.98). (…) A busca da fusão geralmente provoca vários sintomas. Nossa psiquê sabe o que é certo para nós, sabe o que é necessário para o desenvolvimento. Quando usamos o Outro para fugir da tarefa que nos compete, fazemo-nos de tolos por um tempo, mas a alma não se deixará enganar. Ela expressará seu protesto por meio de doenças físicas, complexos ativados e sonhos agitados. A alma quer sua expressão mais plena (…).” p.97). Ninguém pode fazer aquilo que só você pode realizar.

A sua jornada precisa ser corrida por você mesmo. Assumir a RESPONSABILIDADE pelo seu caminho, as suas escolhas, é tarefa individual, este é o preço do crescimento e condição essencial para o processo de individuação (Hollis, p.95).
 
“Somos viajantes, todos separadamente. (…) Em nossa solidão tornamos agradável a viagem do Outro, que por sua vez faz o mesmo conosco. Embarcamos separadamente e desembarcamos separadamente, e nos dirigimos para nossos objetivos separadamente.” (p. 74). Hollis lembra o poeta checo Rainer Maria Rilke: “Esta é a tarefa mais importante da relação entre duas pessoas: uma deve estar sempre atenta à solidão da outra.” (Rilke apud Hollis, op.cit. p.73), e alerta: “O maior presente que levamos para o relacionamento somos nós mesmos.” (ibidem). Hollis coloca o diálogo entre o Eu e o Outro como a “psicodinâmica que dá orígem e promove o crescimento' (p.70). Não apenas abordando a questão do relacionamento e do amor, o livro trata também de conceitos e ideias sobre o casamento. Usa para falar do casamento a metáfora da conversação, e fala de casamento como relação de profundidade e com caráter de compometimento.

 
Hollis entende que o princípio de toda relação é a projeção, esse voltar-se para o outro, amar no Outro e reconhecer nele, coisas que não reconhecemos em nós mesmos, encantar-mos-nos com ele. Por isso é importante sempre perguntar: “O que isso diz de mim ?” (op. cit. p. 69), “Que parte minha foi projetada, e com que objetivo?” (p.63) - para recuperar a parte de nós mesmos que nele foi projetada, reverter a projeção.
 
 Mas TODA projeção é inconciente, “pois, no momento mesmo em que a pessoa observa 'Fiz projeção', ela já está no processo de recuperá-la. “ (p.41). E cita Jung: “(...) Projeção é sempre o inconsciente ativado que procura expressão.” (Jung apud Hollis, p.64)
 

É útil a descrição que Hollis faz de como detectamos projeções, destacando 3 maneiras (p.63):

1 Existem situações previsíveis em que os complexos, ou projeções , têm probabilidade de serem ativados. De modo geral, toda a esfera da intimidade (…).

2 As projeções podem ser sentidas fisicamente: estômago embrulhado, coração acelerado, mãos suadas e outras sensações são estados somáticos que nos alertam para a probabilidade de projeção (…).

3 A quantidade de energia descarregada é sempre desproporcional à situação (…).
 

A despeito da dor causada pela projeção na fase em que o desgaste dela acontece, Hollis defende a ideia de que relacionamento é questão de transformação:
 
 
“Para quem tem a felicidade de encontrar o amor desinteressado, o relacionamento é transformador. Somos muito mais ricos depois, mesmo com a perda e o conflito, do que éramos antes. Podemos ser agradecidos por essa riqueza. Podemos até bendizer os que nos feriram, pois foram eles que deram a contribuição maior para nossa transformação. Podemos até ama-los deixando que sejam quem são, mesmo enquanto nos debatemos para ser nós mesmos na jornada (…).”
 
 
 
No final do processo iniciado com a projeção que dá início ao relacionamento, temos a possibilidade, se não nos perdermos nos meandros do mal uso poder no processo de reversão, de re-encontrarmos a nós mesmos. Darmos boas vindas de volta à partes de nós até então adormecidas, que poderão ser novamente re-conhecidas, às vezes transformadas, e re-integradas em nós de modo consciente e profundo.

Apesar de belo, tal processo ocorre de modo por vezes difícil, permeado por dor e a necessidade de vencer medos, dentre os quais, o medo de novamente reviver o sentimento do abandono. Contudo, vencer o medo é crucial no processo de se deixar amar. “A capacidade de sofrer a ferida e de aprender adaptar-se a ela é crucial. (…) A questão mais profunda, porém, é se somos nós que temos as feridas ou se são elas que nos têm (p.22).

Já antes lemos nos Evangelhos (cuja palavra significa “Boa Nova, Boa notícia):
“O verdadeiro amor, lança fora todo o medo.”


Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias.
Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.

Contato: flaviaroldao@gmail.com

 
Referências:
HOLLIS, James. O Projeto Éden: a busca do outro mágico. São Paulo: Paulus, 2002.
Imagens :
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