sábado, 27 de abril de 2013

SOBRE SEGREDOS, VERGONHA E LONGE-V-IDADE

Existe um tema que tem sido pouco destacado na literatura científica em língua portuguesa no campo da psicoterapia de família, casais e sistemas: a vergonha. O fato deste tema não ter merecido ainda entre a maioria dos estudiosos e clínicos, um grande destaque, não significa que ele se manifeste pouco na vida das pessoas ou apareça pouco na clínica e demais relações de ajuda, mas sim, que ele tem sido pouco trabalhado enquanto categoria central nas reflexões e estudos dos psicoterapeutas e outros profissionais.



Dias atrás, trabalhando na clínica com pessoas em sofrimento psíquico devido a este problema, fui buscar referencial teórico que me ajudasse a compreendê-lo melhor, e me deparei com a obra do neuropsiquiatra Boris Cyrulink: "Dizer é morrer: a vergonha".


O livro aborda este tema desconcertante, de maneira profundamente empática e inquietante  em suas primeiras páginas.  Resolvi compartilhar com você, leitor deste blog, um trecho das duas primeiras páginas, pois ao ler este trecho, percebi-o como altamente sensibilizador para a importãncia e o cuidado que esta temática deve merecer por parte dos profissionais da área de ajuda. A pessoa que em seu íntimo já sofre tendo que lidar com a vergonha, não necessita ter iatrogenicamente que lidar também com a culpa como sintoma secundário instalado em si, pela forma às vezes pouco empática, com a qual um profissional pode abordá-la, na tentativa de ofercer ajuda. Fato este que não é difícil de ocorrer, se o profissional não estiver atento ao seu papel de acolhimento da queixa sem realizar um julgamento de valor, mas abordar o outro que sofre partir de uma postura empática.

Há uma metáfora que aprecio bastante para pensarmos o que é empatia: empatia é calçar os sapatos do outro para poder saber onde lhe dói ou aperta os pés. É o ato de solidarizar-se com o outro e perguntar-se ao calçar os seus sapatos: Porque ele não consegue caminhar? Qual o tamanho dos seus pés ? Porque o sapato lhe aperta? Onde o sapato foi laceado e agora não mais acomoda-se perfeitamente aos pés?



Feldman e Miranda em seu livro "Construindo a relação de ajuda", citam Paul Tournier que entende ser bela, intensa e libertadora a experiência de se aprender a ajudar o outro. E escreve: "Ninguém pode se desenvolver livremente nesse mundo, nem encontrar uma vida plena, sem sentir-se compreendido por uma pessoa pelo menos..."

Em publicação anterior no artigo "Pistas para a construção de uma pastoral do cuidado junto a pacientes fora de possibilidades terapêuticas e seus familiares", já mencionamos a idéia de Cecily Saunders por nós corroborada, de que " o sofrimento humano somente é intolerável quando ninguém cuida." ( Souza e Roldão). Mas para poder cuidar e oferecer ajuda efetiva mediante o sofrimento do outro é preciso sensibilidade, tato e empatia.

O psicólogo norte americano Carl Rogers realizou na década de 60 do século passado, um dos estudos mais importantes na área da psicoterapia. Ele investigou em diferentes abordagens teóricas, dentre outras questões, o que gerava resultados positivos no processo psicoterápico, e encontrou em sua pesquisa o surpreendente fato de que, os efeitos positivos em psicoterapia "não estavam ligados à abordagem teórica ou às técnicas usadas pelos terapeutas." Ou seja, "o crescimento do cliente não é função da abordagem teórica ou das técnicas usadas pelo terapeuta." O que a pesquisa demonstrou foi que, algumas características individuais do terapeuta no seu relacionamento com o cliente, suas posturas ou atitudes terapeuticas, têm impacto positivo no processo psicoterápico, independente da denominação teórica que o terapeuta usa. Tais características que influenciam positivamente o processo de ajuda são: empatia, aceitação incondicional e coerência.


Refleti então, sobre a importãncia do acolhimento empático da queixa. As vezes, as pessoas entram em situação de sofrimento psiquico devido ao fato de sofrerem caladas algumas de suas dificuldades e problemas enfrentados na vida, por vergonha de se exporem à outra pessoa com medo de sofrerem acusações, desqualificação, discriminação e não aceitação de quem elas são. Ninguém deseja passar por isso. As pessoas, se puderem, afastam-se do que lhes faz sofrer. E para além de seus problemas e dificuldades já enfrentados, quando a pessoa busca uma relação de ajuda e ainda vem a sofrer iatrogenicamente destes problemas que ela anteriormente não tinha, aumenta-se o seu sofrimento ainda mais, e a partir de então, a pessoa passa a ter ainda mais um outro problema para lidar além daquele pelo qual incialmente ela pos-se a buscar ajuda. Por isso, empatia é absolutamente fundamental quando um cuidador está lidando com a busca de ajuda numa situação que envolve o sentimento de vergonha (e que por vezes gera o segredo, que também pode ser fonte de sofrimento psíquico).
Mas além da vergonha, que pode gerar o segredo, ou em outros casos, do segredo, que pode gerar a vergonha, outro fator também pode estar ligado à vergonha: as escolhas mal realizadas que geraram atitudes das quais as pessoas se envergonham. Porém, é difícil que alguém passe pela vida sem nunca ter passado por esse tipo de experiência, e sendo assim, esse é um fato muito comum entre os seres humanos. O problema, é que as vezes não acolhemos, e/ou nos esquecemos daquele nosso lado que não é tão bom, tão agradável a nós, e quando a situação ocorre com o outro, também não acolhemos as suas falhas com a devida empatia e solidariedade.



O tema das escolhas realizadas na vida é outro tema bastante complexo, especialmente nos dias atuais. Para mencionar apenas um motivo implicado neste processo de complexidade, destaco aqui o fato da longevidade que os humanos tem alcançado nos últimos anos. Temos vivido 70, 80 e as vezes até 90 anos, mas muitas das escolhas que são absolutamente centrais e fundamentais na vida foram feitas na adolescência aos 16, 18, 21 anos. Contudo temos que dar conta de administrar e conviver com tais escolhas não apenas por mais 20  ou 30 anos até morrermos, como acontecia no passado quando as pessoas morriam mais cedo por volta dos 45, 50 ou 60 anos, mas conviver e administrar o impactos destas escolhas por mais 30, 40, 60 anos ou mais. E as vezes a vergonha é fruto do impacto destas escolhas precoces do tempo da imaturidade, e portanto nem haveria muita razão de ser. Mas as vezes não se trata de uma questão de razão, ocorre que por fatores diversos aí implicados, ela instala-se e atrapalha a vida das pessoas. Daí a importãncia destas irem buscar ajuda para trabalharem esta questão na sua vida. Mas os profissionais da área da ajuda precisam estar adequadamente preparados e teoricamente instrumentalizados para lidar com esse tema. Grande desafio tem os seres humanos ao terem que administrar o impacto da longevidade em sua vida. Um campo vasto para pensarmos na importância da qualidade de vida e da saúde mental. Grande desafio possuem os profissionais da área de ajuda ao se prepararem humanamente e tecnicamente para abordarem essa temática nas relações de ajuda.



Vamos então ao trecho do livro de Cyrulink. Espero que a leitura do mesmo sirva-nos como instrumento de sensibilização, para com a delicadeza que merece o tratamento do tema da vergonha na psicoterapia, e em outras formas de relação de ajuda às pessoas:

"Se querem saber porque eu não disse nada, basta tentarem descobrir o que me forçou a calar. As circunstâncias do acontecimento e as reações do meio são coautoras do meu silêncio. Se eu lhes contar o que aconteceu comigo, vocês não vão acreditar, vão dar risada, tomar o partido do agressor, (...) ou pior ainda, ter dó de mim. Seja qual for sua reação, bastará eu contar para me sentir mal sob seu olhar.

Portanto, vou me calar para me proteger, vou pôr na fachada apenas a parte da minha história que vocês são capazes de suportar. A outra parte, a tenebrosa, viverá sem uma palavra nos subterrâneos da minha personalidade. Essa história sem palavras governará nossa relação porque, em meu foro íntimo, contei interminavelmente palavras não compartilhadas, relatos silenciosos.

As palavras são pedaços de afeto que as vezes transportam um pouco de informação. Uma estratégia de defesa contra o indizível, o impossível de dizer, o penoso de ouvir acaba de estabelecer entre nós uma estranha passarela afetiva, uma fachada de palavras que permite deixar na sombra um episódio inverossimil, uma catástrofe na história que eu me conto sem cessar, sem dizer uma palavra.

O não compartilhamento das emoções instala na alma do ferido uma zona silenciosa que fala sem parar, uma espécie de baixo falante em certo sentido, que murmura no fundo de si um relato inconfessável. É difícil calar, mas é possível não dizer. Quando a pessoa não se exprime, a emoção se manifesta de forma ainda mais intensa sem palavras. Enquanto está sofrendo, um ferido não fala, ele cerra os dentes e só. Quando o não dito hiperconsciente não é compartilhado, ele estrutura uma presença estranha. ' Embora a conversa desse homem seja fluente, sinto que ele fala para esconder o que não diz.' O recalcamento organiza interações diferentes. Inicialmente ele é inconsciente. Com os sonhos, contudo, surgem cenografias estranhas que deixam escapar enígmas que pedem para ser decifrados.

O envergonhado aspira falar, gostaria muito de dizer que é prisioneiro de uma língua muda, do relato que ele conta para si em seu mundo interno, mas que não pode lhes dizer de tanto que teme o olhar dos outros. Acredita que vai morrer se falar. Então conta a história de outra pessoa que, como ele, sofreu um baque terrível.

Ele escreve uma autobiografia em terceira pessoa e se espanta com o alivio que lhe proporcionou o relato de outra pessoa igual a ele, um representante de si, um porta voz. O fato de ter dado uma forma verbal ao baque sofrido e tê-lo compartilhado apesar de tudo, permitiu-lhe abandonar a imagem do mosntro que acreditava ser. Voltou a ser como todo mundo, porque você o entendeu (...)."



REFERÊNCIAS:

CYRULINK, Boris. Dizer é morrer: a vergonha. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

FELDMAN, Clara e MIRANDA, Márcio L. Construindo a relação de ajuda. 14 ed. Belo Horizonte: Ed Crescer, 2004.

SOUZA, Roberta C. e ROLDÃO, Flávia D. Pistas para a construção de uma pastoral do cuidado junto a pacientes fora de possibilidades terapêuticas e seus familiares. In: Revista Via Teológica, n. 16 vol 1. junho de 2008.

REFERÊNCIA DAS IMAGENS:
Facebook : Link para : Painting the world
                                     Dreamstime
Blogs: http://colheitade69.blogspot.com.br/2010/04/empatia.html 
            http://www.gabiamou.com/2009/11/suri-cruise-e-seus-sapatinhos-de-salto.html 

 
Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias.
Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.

Contato: flaviaroldao@gmail.com


sábado, 6 de abril de 2013

VIVER ENQUANTO SE ESTÁ VIVO





O filme “Pronta para amar” é um filme sobre o viver e o morrer. Nem todas as pessoas que respiram estão vivas. Nem todas as que se pensam vivas plenamente estão. Nem todas as pessoas que vivem a terminalidade da vida, morrem de repente e são pegas de surpresa. “Mares tranquilos não fazem bons marinheiros.”
As pessoas morrem da mesma forma como vivem ? Será que precisa ser assim? As pessoas podem aprender a viver e a morrer todos os dias. Esta é uma oportunidade latente.

Estamos todos morrendo ? Todos os dias ? Estamos todos caminhando para uma vida que transcende o “mundo das aparências”, todos os dias ? Estamos todos voltando para a casa ? Ou estamos todos indo embora ?




Estamos todos caminhando para a morte ou para a vida ?
Diferentes mapas mentais... diferentes visões de mundo trazem diferentes respostas a perguntas que todos fazemos um ou outro momento da vida.


"Quem não está ocupado nascendo, está ocupado morrendo."
Indico a apreciação deste filme a todos aqueles que estão pensando a morte e a vida.



Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias.

Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato: flaviaroldao@gmail.com
                                           Site: http://flaviaroldao.wix.com/flaviadinizroldao



REFERÊNCIAS DAS FOTOS E VÍDEO:
https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&gs_rn=8&gs_ri=psy-ab&tok=fjWDVxXmi4zQa1WWSO9gEg&cp=18&gs_id=21&xhr=t&q=pronta+para+amar+online&bav=on.2,or.r_cp.r_qf.&bvm=bv.44770516,d.eWU&biw=1280&bih=621&wrapid=tljp1365309705469030&um=1&ie=UTF-8&tbm=isch&source=og&sa=N&tab=wi&ei=AvlgUdHCLMHr0gHAnoCgAQ#imgrc=ecx5S21SvlPShM%3A%3BCplge9p4kHQh7M%3Bhttp%253A%252F%252F3.bp.blogspot.com%252F-YMDHuW-jnQg%252FUKq6tanViPI%252FAAAAAAAAG7o%252FuTizQt75nVE%252Fs1600%252FPronta%252BPara%252BAmar%252B(1).jpg%3Bhttp%253A%252F%252Fmarciotheplaycapas.blogspot.com%252F2012%252F11%252Fpronta-para-amar.html%3B1600%3B1074

https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&gs_rn=8&gs_ri=psy-ab&tok=HdttlcfIqRUfy_uAnXZwcQ&cp=7&gs_id=q&xhr=t&q=pronta+para+amar&bav=on.2,or.r_cp.r_qf.&bvm=bv.44770516,d.eWU&biw=1280&bih=621&wrapid=tljp1365311524658012&um=1&ie=UTF-8&tbm=isch&source=og&sa=N&tab=wi&ei=IgBhUaaREKbW0QGd5IAY#imgrc=kwIeBbGLWCplpM%3A%3BMaloAY5RvPRqDM%3Bhttp%253A%252F%252Fcf2.imgobject.com%252Ft%252Fp%252Foriginal%252FoaaJ2H05yoiSsjgSLW9A5wNVkFM.jpg%3Bhttp%253A%252F%252Ffilmes.film-cine.com%252Fpronta_para_amar-m31493%3B1920%3B1080

https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&gs_rn=8&gs_ri=psy-ab&tok=fjWDVxXmi4zQa1WWSO9gEg&cp=18&gs_id=21&xhr=t&q=pronta+para+amar+online&bav=on.2,or.r_cp.r_qf.&bvm=bv.44770516,d.eWU&biw=1280&bih=621&wrapid=tljp1365309705469030&um=1&ie=UTF-8&tbm=isch&source=og&sa=N&tab=wi&ei=AvlgUdHCLMHr0gHAnoCgAQ#imgrc=JsbT4aw6Yk06UM%3A%3BzKyicyXS22CRbM%3Bhttp%253A%252F%252F24.media.tumblr.com%252Ftumblr_lzgc7onhdH1qjd1vho1_400.jpg%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.tumblr.com%252Ftagged%252Fpronta%252520para%252520amar%253Fbefore%253D18%3B350%3B402

http://www.youtube.com/watch?v=Neg1hINyIgk

https://www.youtube.com/watch?v=-SAl7wGU5j8

sexta-feira, 29 de março de 2013

O MENINO DE PIJAMA LISTRADO e A BUSCA



A inocência infantil é uma dádiva, mas também pode colocar a própria VIDA em risco .

Há filmes que merecem ser assistidos sobretudo pela sua cena final. É o caso deste filme, e também de outro mais recente em cartaz: “A BUSCA”.



São filmes que abordam o tema da FAMÍLIA.

Claro... como toda obra artística bem construída, caso de ambas as películas, podemos destacar diversos temas, pois elas podem ser apreciadas e consideradas a partir de vários e diferentes ângulos.



O filme “O MENINO DE PIJAMA LISTRADO” chamou minha atenção por retratar com primazia a forma absurdamente diferente como duas crianças com a mesma idade – 8 anos – vivem a infância. Me fez novamente refletir que não é possível falarmos em “A" infância mas em “infâncias”. Essa etapa da vida é vivida de modo bem peculiar por cada infante, dependendo sempre das condições de seu contexto cultural e do momento histórico no qual a criança está inserida.



Toda pessoa é o um ser sócio-histórica e culturalmente determinado. Há ainda a parte que cabe à singularidade de cada um. Como cada pessoa se posiciona diante da vida, dos desafios e as possibilidades que lhe são apresentadas – uma parte que envolve determinações genéticas, legados familiares, escolhas pessoais – processo altamente complexo , multideterminado e sistêmico. Será que há nesta vida algo de maior complexidade do que a configuração de cada personalidade humana?



Mas este é um filme que trata sobre como diferentes pessoas, em diferentes faixas etárias e papéis sociais vivem, convivem, vêem a vida e se colocam nela. Como vivem e como morrem. Como “fazem escolhas” e como vivem sem escolhas. Aborda ainda o tema de como casais nem sempre concordam sobre coisas essenciais para o convívio em paz debaixo de um mesmo teto, e para criarem seus filhos, bem como, destaca que o que as mulheres sentem nem sempre é levado em conta, da mesma forma, de como aquilo que as crianças sentem também não são. Mas crianças e mulheres são pessoas em posição diferente na vida? Ou não? Ou não foram? Ou não são assim consideradas ainda hoje? Adultos e infantes são diferentes? Devem ser tratados diferentemente? Têm diferentes responsabilidades diante da vida – independente de seu gênero?


Aríés (1978) ajuda a lembrar que a noção de infância não existiu sempre, é uma construção mais recente. E o direito às mulheres de serem escutadas, respeitadas e preservada a sua dignidade de posicionar-se no mundo enquanto um ser adulto e com direito a escolhas e participação em decisões – seja na vida ou seja no contexto da morte - como o filme bem ilustra. É isso uma construção vigente atualmente em todas as sociedades neste mundo? Em todas famílias na sociedade brasileira? Acho que apenas estas duas questões, para quem assistiu o filme bastam, para respondermos que também ao se abordar o tema acerca do “ser mulher”, teremos que falar em diferentes formas de ser mulher, nas sociedades e nas famílias hoje. Uma forma idealizada de infância e sobre ser mulher não ajuda. É preciso ter os pés bem calcados na realidade ao olhá-la.



E por falar em família, a transmissão de padrões geracionais é outro tema muito brevemente delineado no filme; porém não de menor importância, a ponto de não merecer destaque. Isso pode ser percebido na forma do avô tratar a avó, e do pai tratar a mãe, bem como, no comportamento da filha. Aliás, com o final do filme não houve possibilidades de observar as mudanças que possivelmente ocorreriam nos padrões familiares, nos valores e nas crenças, a partir do evento trágico ocorrido. Mas há cenas que ilustraram bem o sofrimento de ambas as esposas- a do pai e a do filho, a partir da imposição unidirecional e exclusiva de valores e ideias deles sobrepondo-se as delas, na vida e na morte, não abrindo muitas possibilidades para escolhas.


Uma busca que diferente do filme A BUSCA, termina com um fim trágico. Eu fiquei me perguntando ao final, qual seria a continuidade do filme, se ele assim tivesse uma. Me perguntei se uma criança precisou morrer para que a vós da mãe, e da avó, se fizessem escutar.



Mas isso já são elucubrações de uma espectadora que vivenciou a experiência estética e interagiu com a obra. Indico ambos os filmes. Eles abrem portas para várias reflexões. E o filme “A busca” pode ser que ainda esteja em cartaz em alguns cinemas.

REFERÊNCIAS:

ARIÈS, P. História social da infância e da família. Tradução: D. Flaksman. Rio de Janeiro: LCT, 1978

IMAGENS  disponíveis em :
Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias.

Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato: flaviaroldao@gmail.com


sábado, 23 de março de 2013

ANDREA BOCELLI - AMOR EM PORTO FINO


Fui assistir à reapresentação do show de Bocelli “Amor em Porto Fino” na tela do cinema. Sem palavras ! Adoravelmente belíssimo !!!



Ao estilo Bocelli, a iluminação do show já é um show à parte. Como de costume o show começa ao cair da tarde e a luz natural vai dando lugar aos poucos à escuridão da noite, e à iluminação noturna. Faz lembrar o próprio ciclo da vida.

E a propósito do ciclo de vida, fiquei “ME” pensando... um amor que valha a pena hoje, nesta etapa da vida, é um amor impregnado de romantismo, cuidado e atenção. As pessoas vão ficando mais seletivas à medida em que o tempo passa. O ditado “antes só do que mal acompanhada” passa a ser lema na vida. É muito triste ver casais de meia idade ou idosos se suportando.
 
 

O tema do show é a paixão – tão bem cantada no espetáculo! Mas como bem colocou o cantor na entrevista ao início do película, paixão tem muitos sentidos, por isso é preciso definir em que sentido se usa esta palavra. Penso isso também sobre o amor, aliás, amor pra mim, é mais importante que a paixão. Gosto de relações duradouras.

Me pensando percebi, que generosidade, educação, atenção e cuidado passaram a ser virtudes muito mais valorizadas num par amoroso à medida que a maturidade foi chegando, e fui aprendendo a fazer escolhas mais pertinentes, e a assumir para mim mesma, quais coisas são fundamentais e quais aquelas das quais é possível abrir mão se necessário for para levar um relacionamento à diante. Atenção, paciência, romantismo, bom gosto e requinte cultural, são fundamentais, valores inegociáveis nesta etapa da vida !

Mas ao pensar em etapas da vida, lembro-me do desenvolvimento humano. Os anos passam para todos, mas o desenvolvimento nem sempre chega no mesmo rítmo que a idade. Há adultos cuja face marca a passagem do tempo nos víncos das rugas, mas cujo desenvolvimento afetivo-emocional não acompanhou a passagem do tempo. Alguns adultos e idosos, no âmbito afetivo, emocional e psíquico não passam de adolescentes. Nosso corpo, alma e espírito não se desenvolvem sempre no mesmo rítmo, e por vezes uma destas dimensões pode estar bastante subdesenvolvida, enquanto outra está mais desenvolvida. Isso lembra também o próprio processo de envelhecimento humano, onde órgãos diferentes envelhecem em rítmos diferentes, coração, cérebro, e a própria pele, envelhecem de forma diferente numa mesma pessoa. Esse dado se manifesta de modo absolutamente complexo no vínculo entre um par amoroso, aproximando ou afastando os dois "adultos" que se relacionam.

O cenário do show é também outro show. Especialmente o colorido que soma-se à iluminação já anteriormente destacada. A escolha das músicas é de um bom gosto impecável, e a entrevista com Bocelli acompanhado da família dá um toque artístico unido ao familiar, todo especial ao início da película. É ainda importante destacar o belo dueto que a esposa faz com ele na interpretação de uma música romântica que fora antigamente cantada por Piaff, momento bastante especial do show.
 



Há certos produtos culturais cuja grandeza é muito maior e vai além do que se pode colocar em palavras, escapando a qualquer possível comentário. É preciso apreciar por si mesmo, realizando a própria experiência estética e tirando as próprias conclusões.

Por hoje, fico no êxtase da beleza vista e ouvida neste espetáculo.


Referências dos vídeos:
https://www.youtube.com/watch?v=ADsl5yakB7s
https://www.youtube.com/watch?v=9tVKEx0ZvqY
https://www.youtube.com/watch?v=-8t4Xkf_1KE


Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias.

Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato: flaviaroldao@gmail.com

sábado, 9 de março de 2013

QUANDO O MEDO ENCOLHE AS PESSOAS



 
Tempos atrás comprei uma boneca bem interessante. Ela vem com as pernas encolhidas presas entre os braços. Os braços formam um nó que segura e paralisa as pernas. Comprei também uma lata de lixo um pouco maior do que ela, e criei uma história, onde essa boneca passa a morar nesta lata de lixo devido a baixa autoestima.

Me peguei pensando que esta mesma boneca utilizada na clínica e em palestras, para trabalhar o tema da baixa autoestima com mulheres, quando sozinha e sem a lata de lixo que a acompanha, pode ser também utilizada como uma metáfora para trabalhar acerca do que o medo as vezes faz com as pessoas: paralisa-as.
 
 
 
 
O sentimento de medo causa no organismo uma reação que prepara para a luta ou fuga. Mas enquanto preparação, não é a ação. É um sentimento paralisador, imobilizador. Num primeiro momento, ele não é nem negativo, nem positivo. Tudo depende de quanto tempo ele dura, a serviço de que ele veio, e como a pessoa lida com ele. Pode ser positivo, quando funciona como alerta para que a pessoa fique atenta a algo perigoso que pode vir a lhe ocorrer se ela continuar adiante. Nesse caso, fazendo uma comparação metafórica com o sinal de trânsito, o medo é como um sinal amarelo, que convida à atenção.
O medo que uma criança tem de colocar a mão no fogo ou o dedo na tomada, pode ser extremamente positivo e protetor. Ou ainda o medo e a atenção consequente de um estado de alerta, que surge quando uma pessoa pensa em realizar algo que envolve certo risco. Nestes casos o medo é algo altamente benéfico.
 
 
O medo passa a ser negativo em pelo menos duas outras situações. Quando a pessoa convive com ele por um longo período de tempo, e quando ele é “ilusório” e “desnecessário”.
No primeiro caso ele é ruim, pois, a reação de medo desencadeia stress no organismo. O stress envolve um longo processo de alterações bioquímicas que impacta o organismo e visa prepará-lo para uma ação de luta ou fuga. O stress “é uma reação psicofisiológica muito complexa que tem a sua gênese na necessidade do organismo fazer face a algo que ameace sua homeostase interna.” (LIPP). Segundo Marilda Lipp, o stress é um processo, e não uma reação única.


Diante do evento estressor, que mobiliza o organismo através de mudanças bioquímicas para o enfrentamento da situação e preservação da vida, se a situação se resolve, e no tema aqui abordado, o medo por exemplo, é superado, o organismo volta à seu equilíbrio natural, ou homeostase. Mas se a situação persiste, instala-se então um processo no qual, o organismo que estava numa primeira fase de stress, a fase de alerta, “que contribui para maior produtividade no ser humano” (LIPP) e que nesta fase podemos considerar um stress bom, segue adentrando a outras fases de mobilização de mais energias na tentativa de resistir ao elemento estressor - o medo. O stress segue então para etapas mais avançadas do processo nas quais as defesas do organismo começam a ceder e ele já não dá mais conta de resistir e recobrar a homeostase. O organismo vai sofrendo desgaste generalizado com consequências diversas como por exemplo, impacto na imunidade e a manifestação de doenças diversas de cunho físico e mental. Segundo Lipp, pode ocorrer a morte como resultado final à tentativas prolongadas de resposta do organismo a um stress que perdura por longo período.
 

A pessoa sob stress sente o impacto deste processo em várias facetas da sua vida: no trabalho, na família e demais relações afetivas e sociais. Conforme Lipp, “No âmbito psicológico e emocional do ser humano, o stress excessivo produz cansaço mental, dificuldade de concentração, perda de memória imediata, apatia e indiferença emocional. A produtividade sofre quedas e a criatividade fica prejudicada. Autodúvidas começam a surgir em virtude da percepção do desempenho insatisfatório. Crises de ansiedade e humor depressivo se seguem. A libido fica reduzida e os problemas de ordem física se fazem presentes. Nestas condições a qualidade de vida sofre um dano bastante pronunciado e frequentemente os pacientes, nesta situação, relatam 'vontade de fugir de tudo'. ” (LIPP)


Mas o medo não é negativo apenas quando ele é vivenciado de modo demorado. Ele é negativo também quando decorre desnecessariamente na vida, quando é ilusório. Há situações nas quais o medo é provocado por uma distorção da percepção. Nestes casos ele não seria necessário, mas acontece muitas vezes pela supervalorização de algo, ou pela pressuposição de algo que realmente não existe, mas passou a existir pela percepção distorcida das coisas, das pessoas ou das relações. Passou a existir na mente da pessoa. Passou a afetar suas emoções, suas ações e sua vida.
 
 

Uma das formas possíveis desse afetamento é a paralisação na vida ou até mesmo, em alguns casos, da própria vida. É nestes casos que digo que o medo encolhe. Metaforicamente falando, ele pode encolher a expressão de pensamentos, a manifestação de afetividade, o progresso na carreira profissional, a construção de novos projetos de vida, a realização de sonhos. Nestes casos, o medo muitas vezes vem acompanhado de preocupação. Uma ocupação e sofrimento antecipados decorrentes de sentimentos e pensamentos de que algo ruim ou catastrófico pode vir a acontecer. O problema é que, a vida da pessoa, sua qualidade de vida, e muitas vezes suas relações são afetadas por essa pre-ocupação, que as vezes, também não seriam necessárias, como por exemplo nos casos de percepção distorcida da realidade.

A boneca encolhida que comprei, faz-me lembrar que a pessoa encolhida fica muito menor do que o seu tamanho real. A pessoa encolhida fica menor do que realmente é, e assim é que se coloca na vida. O medo encolhe. Por isso para seguir a diante é necessário buscar superá-lo para poder desencolher-se e seguir em frente na vida.
 
 
 
Enfrentar os seus medos e aprender a lidar com eles, nem sempre é fácil. É preciso coragem. Mas de fato, viver e não apenas sobreviver enquanto se está vivo, exige ousadia, e o enfrentamento do medo, muitas vezes nos mostra, que aquele sofrimento por ele causado era desnecessário, possibilitando uma renovação da pessoa ao superar aquilo que lhe paralisava, bem como melhores relacionamentos e uma melhor qualidade de vida.
 
 
 

 
Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias.

Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato: flaviaroldao@gmail.com
 
 
REFERÊNCIAS:
LIPP, M. E. N. Mecanismos neuropsicofisiológicos do stress. In: LIPP, M. E. N. Mecanismos neuropsicofisiológicos do stress: teoria e aplicações clínicas. São paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
 
Imagens:
Facebook - páginas diversas
 





terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Refletindo sobre “O LADO BOM DA VIDA”






Indicado ao Óscar 2013 em oito categorias, “O lado bom da vida” é um filme sem grandes fatos extraordinários, porém, com uma história muito bem narrada, e personagens instigantes e bem interpretados. Aborda de modo central os temas do divórcio, transtorno mental, perdas e diferentes tipos de lutos, culminando com a temática da reinvenção da vida.
O casal Pat e Dolores Solitano, são os pais de Pat Solitano Jr, ator que faz o papel principal, e que como seu pai, possivelmente sofre de Transtorno Bipolar (diz-se aqui “possivelmente”, pois o filme não aborda isso explicitamente). Pat Jr, após vivenciar uma experiência de traição da esposa Nikki,, tem um acesso de fúria e é internado em um hospital psiquiátrico. Após alguns meses Dolores, a mãe, consegue sua liberação do hospital, levando-o de volta para a casa sob custódia. Quando Pat volta, resolve ir novamente ao encontro da ex-mulher, negando para si mesmo a nova realidade instalada na relação após o episódio da traição, em tentativas desesperadas de se reaproximar da ex-mulher.



O filme caracteriza bem, como momentos de grande stress podem expor vulnerabilidades pessoais, exacerbando alguns comportamentos e impulsionando a outros, que em situações normais possivelmente não se manifestariam. Também caracteriza muito bem, o contexto de vida e impacto da perda de um relacionamento afetivo na vida das pessoas, não apenas na atuação de Pat, mas também na de Tiffany, uma moça de temperamento forte e comunicação direta, que ele conhece quando sai do hospital, e que tal como ele, está lidando com a experiência de perda e vivenciando um momento de luto.



A psicóloga Terezinha Féres-Carneiro ao estudar a separação conjugal, destaca que, assim como “o casamento implica na construção de uma nova identidade para os cônjuges … no processo de separação, a identidade conjugal, construída no casamento, vai aos poucos se desfazendo, levando os cônjuges a uma redefinição de suas identidades individuais”. E citando Caruso, essa mesma pesquisadora alerta: “A separação é uma das mais dolorosas experiências pelas quais pode passar um ser humano, é um processo complexo, vivido em diferentes etapas e em diferentes níveis, ou seja, nos pensamentos secretos de cada membro do casal, no diálogo entre eles e na explicitação para o contexto social que os circunda.”



Se Tiffany estava vivendo um luto por morte, Pat estava vivendo um luto pela perda da esposa e do casamento idealizado. Também neste sentido Féres Carneiro ilumina a compreensão do processo ao lembrar que “estudar a separação amorosa significa estudar a presença da morte na vida.” Ainda lembrando Caruso, esta psicóloga explicita que “na separação há uma sentença de morte recíproca: 'o outro morre em vida, mas morre dentro de mim... e eu também morro na consciência do outro.”


Nessa fase difícil, a promoção da saúde emocional é fundamental. Especialmente se considerarmos os dados de outro pesquisador na área da morte e luto, Colin Murray Parkes, que indica que o stress causado pelo luto pode, de alguma forma, predispor à maior vulnerabilidade à manifestações de doenças e maior risco de morte no período de enlutamento..

No filme, Pat e Tiffany encontram a benção de se conhecerem e iniciarem uma amizade marcada por profundo apoio mútuo (que posteriormente desembocará em um relacionamento amoroso de casal). A amizade como importante fator de saúde mental, já foi apontada por estudiosos tais como, Tom Rath em seu livro “O poder da amizade”, e Klaus Manhart em seu artigo “Nada como um bom amigo”. Consideramos que o filme destaca com beleza e concretude os benefícios dessa relação de amizade para ambos. Relação esta que aos poucos vai se transformando numa relação amorosa.
Neste sentido, lembramos o psicólogo Paolo Menghi, ao ensinar-nos que “uma relação de casal pode representar para os dois membros que a compõem, a forma de psicoterapia mais eficaz (…) uma oportunidade incrível de evolução individual.” Sendo que, “um dos objetivos fundamentais de uma relação de casal consiste em favorecer o processo evolutivo de seus participantes.”

Tanto o luto por morte do companheiro, ou pelas perdas advindas de uma experiência de divórcio, acabam por colocar os ex-cônjuges, e as vezes as demais pessoas da família, em uma diferente etapa do ciclo vital. No caso das pessoas que passam pela experiência da separação e divórcio, Carter e Macgoldrick destacam que “existem modificações cruciais no status relacional e importantes tarefas emocionais que precisam ser completadas pelos membros da família que se divorcia para que eles possam prosseguir desenvolvimentalmente. (…) Cada parceiro deve recuperar esperanças, sonhos, planos e expectativas que foram investidos nesse cônjuge e nesse casamento.” No filme, vemos a necessidade de Pat cumprir essa função com relação Nikki, para poder libertar-se e seguir adiante.



Carter e Macgoldick lembram que o período médio avaliado por elas em sua experiência clínica, e corroborado por outros pesquisadores, que uma pessoa ou família leva, com grande esforço, para reajustar-se à sua nova situação e prosseguir adiante para a próxima etapa do ciclo de vida (incluindo ou não uma experiência de recasamento) é de no mínimo 2 anos. E mais ou menos esse mesmo período de tempo elas consideram necessário na adaptação, e construção de uma nova estrutura no caso de recasamento. E alertam: “As famílias em que as questões emocionais do divórcio não estão adequadamente resolvidas podem permanecer emocionalmente paralisadas por anos, se não por gerações.”



No filme, Pat que lutou grandemente pela oportunidade de se reaproximar de Nikki, quando teve essa oportunidade, já estava tão profundamente envolvido pelo apoio, companheirismo e cumplicidade com Tiffany, que opta por investir na nova relação, abandonando as ilusões referentes ao primeiro relacionamento que já anteriormente não havia ido adiante. Neste momento, a trama da película chega ao fim. Os expectadores não sabem como essa história seguiria. Contudo, na vida real as terapeutas de família Carter e Macgoldrick, chamam a atenção para o processo emocional envolvido pelo par amoroso na etapa seguinte do ciclo de vida, que pode implicar no recasamento: “consiste em lutar com os medos relativos ao investimento em um novo casamento e numa nova família, os próprios medos da pessoa, os medos do novo cônjuge e os medos dos filhos (de um ou de ambos os cônjuges); lidar com as reações hostis ou de perturbação dos filhos, das famílias ampliadas e do ex-cônjuge, lutar com a ambiguidade da nova estrutura, papéis e relacionamentos familiares (…)” dentre outros fatores. Elas chamam a atenção para o desafio de inventar uma nova forma de estrutura familiar e aceitar a complexidade da nova forma.








 
Finalizando essa análise do filme, é importante destacar ainda a concretude com que o filme caracteriza o profundo sentimento de dor que pode marcar o rompimento de uma relação afetiva nas separações e divórcios, com implicações inclusive para as Famílias de Origem envolvidas, aspecto também muito bem ilustrado no filme. A dor pode ganhar contornos especiais, principalmente quando acompanhada por traição inesperada, como no caso de Pat. Dois marcos deixam isso bem pautados na trama: a dificuldade de lidar com as lembranças, e o comportamento agressivo daí decorrido.
O fato de Pat ficar absurdamente descontrolado e furioso quando escuta a música que marcou o seu relacionamento amoroso com Nikki e também a experiência de flagrante de traição, é um dos pontos fortes do filme. Chama a atenção o reviver das emoções negativas por ele, ao escutar a música tocar, com tal intensidade, sentindo-se ele absolutamente “tomado” pelas emoções, gerando algum sentimento que acaba sendo expressado em forma de grande agressividade. Neste momento é como se a emoção fosse maior do que ele, e se apoderasse de sua pessoa de tal forma que perde o controle. Embora em diferentes níveis, cabe aqui destacar que não é incomum, que nas situações de separação as memórias “fantasmáticas do passado” eventualmente tornem a visitar as pessoas, e por vezes as memórias e sensações chegam a apoderarem-se delas. Daí o grande auxílio que se pode obter de um processo psicoterapêutico que possa auxiliar a pessoa no enfrentamento dessas emoções, e na lida com suas memórias, com vistas à superação e não paralisação de seu desenvolvimento e vida.
 

Para Parkes, “a dor do luto é talvez o preço que pagamos pelo amor, o preço do compromisso. Ignorar esse fato ou fingir que não é bem assim, é cegar-se emocionalmente, de maneira a ficar despreparado para as perdas que irão inevitavelmente ocorrer em nossa vida, e também para ajudar os outros a enfrentar suas próprias perdas.” Tal ideia faz lembrar um trecho de um poema cuja autoria tem sido atribuida a Soren Kiekegaard que diz: “Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor seu eu verdadeiro. Amar é arriscar-se a não ser amado. Mas... é preciso correr riscos. Porque o maior azar da vida é não arriscar nada... Pessoas que não arriscam, nada fazem, nada são. Podem estar evitando o sofrimento e a tristeza. Mas assim não podem aprender, sentir, crescer, mudar, amar, viver... (…) Arriscar-se é perder o pé por algum tempo. Não se arriscar é perder a vida... “

REFERÊNCIAS
CARTER, B. e MCGOLDRICK, M. As mudanças no ciclo de vida familiar. In: CARTER, B. e MCGOLDRICK, M. As mudanças no ciclo de vida familiar. Porto Alegre Artmed, 1995.
FÉRES-CARNEIRO, T. Separação: o doloroso processo de dissolução da conjugalidade. In: Estudos de Psicologia (Natal). v.8, n. 3. Natal: RN, set/dez.,2003
KIEKEEGAARD, S. Rir é arriscar-se.. Disponível em: http://pensador.uol.com.br/frase/NTE5ODUw/
MANHART, K. Nada como um bom amigo. In: Viver Mente e Cérebro, n 159.
MENGHI, P. O casal útil. In: ANDOLFI, M. O casal em crise. São Paulo: Summus, 1995.
PARKES, C. M. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. São paulo: Summus, 1998.
RATH, T. O poder da amizade. São Paulo: Sextante, 2006.
Fontes das imagens:

Referências do vídeo:

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O ASPECTO POSITIVO E CONSTRUTIVO DA IMAGINAÇÃO EM VYGOTSKY



...Ver a imaginación no un divertimiento caprichoso del cerebro, (...) sino como una función vitalmente necesaria
(Vygotsky)



O  Russo Lev Semyonovitch Vygotsky é atualmente um dos teóricos mais influentes na área da Educação e da Psicologia. Considerado o pai da Psicologia Histórico-Cultural, influenciou muitos outros teóricos e pesquisadores que continuaram a desenvolver estudos a partir das idéias que foram lançadas por ele, mas que devido a sua morte prematura, aos 38 anos de idade, não foram totalmente desenvolvidas (GOZÁLEZ REY, 2001).




Ele teve passagem por várias áreas do conhecimento, tais como o direito, a medicina, a educação, a arte  (especialmente a literatura e o teatro). Atuou como professor, filólogo, crítico literário e pesquisador, dentre outras atividades (COLE & SCRIBNER, 1989; LURIA, 1989; BRUNER, 1991).

Escreveu sobre muitos assuntos referentes ao ser humano, dentre eles, “a imaginação”.




Entende que a imaginação tem um aspecto positivo e construtivo. Ela é o princípio para a criação de todo o novo na vida cultural, e para a expansão dos conhecimentos. Ele escreve:


(...) La imaginación, como base de toda actividad creadora, se manifiesta por igual en todos los aspectos de la vida cultural posibilitando la creación artística, científica y técnica. En este sentido, absolutamente todo lo que nos rodea y ha sido creado por la mano del hombre, todo el mundo de la cultura, a diferencia del mundo de la naturaleza, todo ello es producto de la imaginación. (1990)



Em seu livro La imaginación y el arte en la infancia”, ele valoriza a imaginação como sendo uma atividade importantíssima da mente humana. Se refere a ela como uma “função vitalmente necessária” e de enorme complexidade.

Explica que há duas concepções distintas da imaginação.
Uma concepção vulgar (do senso comum) que entende por imaginação - o irreal, aquilo que não se ajusta à realidade e que portanto, necessita de um valor prático.
A outra, é a concepção científica que a Psicologia faz da imaginação, como uma atividade criadora e construtiva do cérebro humano.







No entender da psicologia histórico-cultural, nosso cérebro é dotado de duas atividades: uma atividade conservadora – a memória; e uma atividade combinatória, criativa, construtiva – a imaginação.

A imaginação utiliza-se da memória para suas construções, e “toda atividade humana que não se limita a reproduzir acontecimentos e impressões vividas, pertence a essa função criadora ou combinatória” operada pela imaginação.




Desse modo, é possível perceber que é essa atividade do cérebro que leva o homem a estar voltado para o futuro, sendo capaz de novas criações, construções e descobertas, proporcionando o seu desenvolvimento e o da sociedade.



Referências:

BRUNER, J. S. Introdução. In: VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. 3º ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
COLE, M. & SCRIBNER, S. Introdução. In: VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
GONZÁLEZ REY, F. Vygotsky: presencia y continuidad de su pensamiento. In: Ideasapiens, 2001. Disponível em: www.ideasapiens.com/autores/Vygotsky/ Acessado em 26/05/02.
LURIA, A. R. Nota Biográfica sobre L. S. Vygotsky. In: VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
VYGOTSKY, L. S. La imaginación y el arte en la infancia. 2 ª ed. Madrid: Ediciones AKAL S. A , 1990.



Imagem de Vygotsky disponível em:

Demais imagens são obras de  Joan Miró


Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.

Psicoterapeuta individual, de casais e familias.
Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato: flaviaroldao@gmail.com