Reflexões
a partir dos três primeiros capítulos do livro: O Projeto Éden: a
busca do Outro mágico. James Hollis, Paulus, 2002. Coleção Amor e
Psiquê.
O livro “Projeto Éden” é (desafia-DOR). Desafia à nossa
dor. Alerta sobre quantas vezes buscando a felicidade,
incoscientemente deposita-mo-la no Outro como nosso salvador, aquele
que vai nos “levar de volta para casa” (Hollis, 2002). Toca nossa
ferida, lembra-nos da condição humana mútua que habita dois seres
em relação. Coloca-nos com os pés no chão, nos devolvendo a
consciência. Lembra-nos de que o jardim perdido não pode ser
resgatado. Explica Hollis: “todo relacionamento é o anseio por
retornar” (op.cit. p.17) uma busca essencialmente religiosa “como
atesta a etimologia da palavra 'religião', do latim religare, voltar
a ligar, religar.” (ibidem).
É só através da experiência da perda que a consciência desperta
sobre a impossibilidade e mesmo o absurdo do projeto inicial: ser
salvo pelo “Outro” tão humano e tão falível e vulnerável
quanto eu. Fardo pesado este que sem nos darmos conta, colocamos
sobre o Outro. “A perda repetida do Éden é a condição humana,
mesmo que a esperança de recuperá-la, seja nossa principal
fantasia” - lembra Hollis (op. cit. p. 60). E alerta: “O amor e o
trabalho da alma estão inextrincavelmente entremeados. O Outro
não está aqui para cuidar da nossa alma, mas para ampliar nossa
experiência dela.” (op. cit., p. 78). E destaca: “Quando o
relacionamento não é movido pela NECESSIDADE, mas pela
solicitude para com o outro enquanto outro, então estamos
verdadeiramente livres para vivenciá-lo. Quando nos libertamos de
nossas projeções, abandonamos o projeto 'voltar para a casa',
somos livres para amar. Quando somos livres para amar, somos
presentes, ao mistério encarnado pelo Outro.” (ibidem).
Na tentativa de fugir ao exigente, complexo e duro processo da
individuação, projetamos tal desafio no Outro. Mas lembra Hollis:
“Ninguém fica mais frustrado do que aquele que lava a roupa do
companheiro às custas da sua própria. (p.98). (…) A busca da fusão
geralmente provoca vários sintomas. Nossa psiquê sabe o que é
certo para nós, sabe o que é necessário para o desenvolvimento.
Quando usamos o Outro para fugir da tarefa que nos compete,
fazemo-nos de tolos por um tempo, mas a alma não se deixará
enganar. Ela expressará seu protesto por meio de doenças físicas,
complexos ativados e sonhos agitados. A alma quer sua expressão mais
plena (…).” p.97). Ninguém pode fazer aquilo que só você pode
realizar.
A sua jornada precisa ser corrida por você mesmo. Assumir a
RESPONSABILIDADE pelo seu caminho, as suas escolhas, é tarefa
individual, este é o preço do crescimento e condição essencial
para o processo de individuação (Hollis, p.95).
“Somos viajantes,
todos separadamente. (…) Em nossa solidão tornamos agradável a
viagem do Outro, que por sua vez faz o mesmo conosco. Embarcamos
separadamente e desembarcamos separadamente, e nos dirigimos para
nossos objetivos separadamente.” (p. 74). Hollis lembra o poeta
checo Rainer Maria Rilke: “Esta é a tarefa mais importante da
relação entre duas pessoas: uma deve estar sempre atenta à solidão
da outra.” (Rilke apud Hollis, op.cit. p.73), e alerta: “O maior
presente que levamos para o relacionamento somos nós mesmos.”
(ibidem). Hollis coloca o diálogo entre o Eu e o Outro como a
“psicodinâmica que dá orígem e promove o crescimento' (p.70).
Não apenas abordando a questão do relacionamento e do amor, o livro trata também
de conceitos e ideias sobre o casamento. Usa para
falar do casamento a metáfora da conversação, e fala de casamento
como relação de profundidade e com caráter de compometimento.
Hollis entende que o princípio de toda relação é a projeção,
esse voltar-se para o outro, amar no Outro e reconhecer nele, coisas
que não reconhecemos em nós mesmos, encantar-mos-nos com ele. Por
isso é importante sempre perguntar: “O que isso diz de mim ?”
(op. cit. p. 69), “Que parte minha foi projetada, e com que
objetivo?” (p.63) - para recuperar a parte de nós mesmos que nele
foi projetada, reverter a projeção.
Mas TODA projeção é
inconciente, “pois, no momento mesmo em que a pessoa observa 'Fiz
projeção', ela já está no processo de recuperá-la. “ (p.41). E
cita Jung: “(...) Projeção é sempre o inconsciente ativado que
procura expressão.” (Jung apud Hollis, p.64)
É útil a descrição que Hollis faz de como detectamos projeções,
destacando 3 maneiras (p.63):
1 Existem situações previsíveis em que os complexos, ou
projeções , têm probabilidade de serem ativados. De modo geral,
toda a esfera da intimidade (…).
2 As projeções podem ser sentidas fisicamente: estômago
embrulhado, coração acelerado, mãos suadas e outras sensações
são estados somáticos que nos alertam para a probabilidade de
projeção (…).
3 A quantidade de energia descarregada é sempre desproporcional à
situação (…).
A despeito da dor causada pela projeção na fase em que o desgaste
dela acontece, Hollis defende a ideia de que relacionamento é
questão de transformação:
“Para
quem tem a felicidade de encontrar o amor desinteressado, o
relacionamento é transformador. Somos muito mais ricos depois, mesmo
com a perda e o conflito, do que éramos antes. Podemos ser
agradecidos por essa riqueza. Podemos até bendizer os que nos
feriram, pois foram eles que deram a contribuição maior para nossa
transformação. Podemos até ama-los deixando que sejam quem são,
mesmo enquanto nos debatemos para ser nós mesmos na jornada (…).”
No
final do processo iniciado com a projeção que dá início ao
relacionamento, temos a possibilidade, se não nos perdermos nos
meandros do mal uso poder no processo de reversão, de re-encontrarmos
a nós mesmos. Darmos boas vindas de volta à partes de nós até
então adormecidas, que poderão ser novamente re-conhecidas, às vezes transformadas, e
re-integradas em nós de modo consciente e profundo.
Apesar
de belo, tal processo ocorre de modo por vezes difícil, permeado por
dor e a necessidade de vencer medos, dentre os quais, o medo de
novamente reviver o sentimento do abandono. Contudo, vencer o medo é
crucial no processo de se deixar amar. “A capacidade de sofrer a
ferida e de aprender adaptar-se a ela é crucial. (…) A questão
mais profunda, porém, é se somos nós que temos as feridas ou se
são elas que nos têm (p.22).
Já
antes lemos nos Evangelhos (cuja palavra significa “Boa Nova, Boa
notícia):
“O verdadeiro amor, lança fora todo o medo.”
Flávia Diniz Roldão Psicóloga, Pedagoga e Teóloga. Psicoterapeuta individual, de casais e familias. Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano. Contato:flaviaroldao@gmail.com
Referências:
HOLLIS, James. O Projeto Éden: a busca do outro mágico. São Paulo: Paulus, 2002.
"Todos
os relacionamentos começam e terminam em separação. (...). Através
da corrente sanguínea da nossa mãe começamos a vida (...) mas logo somos afastados
da MÂE, separados do cosmo, separados dos deuses, separados para
sempre. E terminamos todos os relacionamentos de nossas vidas
passando pela morte. Esse hóspede de sorriso assustador chega a
fazer parte do rito matrimonial, lembrando aos nubentes que, no
momento mesmo em que juram fidelidade eterna, inevitavelmente assumem
também o compromisso da perda. (...) Em
tempo demasiadamente breve, um deixará o outro – e não penso aqui
em divórcio. A prevalecerem as estatísticas, o homem morrerá uns
sete anos antes da mulher. (...) Talvez ela parta
antes dele. (...) De uma maneiras ou de outra ambos sofrerão a perda
do relacionamento (...) ou pelo menos daquilo que expressa de forma
mais tangível – a PRESENÇA atenciosa, devotada de um outro. (...) O
que talvez significou mais é que TERÃO PASSADO A VIDA NO CONTEXTO DE
UMA RELAÇÃO PROFUNDA e sutilmente perdida. (...) Vivemos
a vida separados dos outros, dos deuses, e pior de tudo, de nós
mesmos. Intuitivamente todos sabemos disso. Sabemos que somos os
piores inimigos de nós mesmos. Estamos sempre procurando nos
RELIGAR, ENCONTRAR NOSSA CASA NOVAMENTE, e no fim simplesmente a
abandonamos de modo diferente. Talvez não haja casa para onde
possamos retornar. Não podemos voltar ao útero, embora tentemos
(...) assim vivemos sempre desabrigados quer saibamos quer não."
(Hollis, 2002, p.11-12 grifo meu).
vídeo 3 (ver referencias)
As
vezes, há etapas da vida
Nas quais nos afastamos de nós mesmos.
Ou
n'outras, ficamos longe uma longa vida inteira.
É isto, as
pessoas podem acabar longe de si mesmas.
Se
perdem...
N'outras,
perdem pessoas... aos poucos, silenciosamente,
E só quando estão LONGE – como diz a música de Arnaldo Antunes,
Se
dão conta da imensa distância onde foram parar.
Às
vezes... longe de si.
Às
vezes... longe de outras pessoas que elas amaram ou que ainda amam.
vídeo 4 (ver referencias)
Para
o teólogo e pedagogo Clóvis Pinto de Castro:
"...A
morte é nossa sábia CONSELHEIRA. (...) Jesus nos deixa a maior de
todas as lições: para viver é necessário morrer. A morte nos fala
sobre aquilo que estamos fazendo com a nossa própria vida – as
perdas, 'os sonhos que não sonhamos, os riscos que não corremos
(por medo), os suicídios lentos que perpetramos' (Rubem Alves) –
no nosso cotidiano. A morte aponta par a nossa finitude: mostra-nos
que somos humanos, frágeis e precisamos aprender a viver. [A vida]
ela constitui-se o maior de todos os mistérios. (...) É bom
lembrarmos que, quanto mais poderosos formos perante ela, a morte,
mais tolos nos tornamos na arte de viver'. Rubem Alves nos convida a
'ver a morte como companheira silenciosa, conselheira sábia, que
fala com voz branda, sem querer nos atemorizar, dizendo sempre a
verdade e nos convidando à sabedoria de viver.' No silêncio, na
contemplação, podemos descobrir a morte como conselheira, e não
como adversária."
"Metamorfoses da identidade."
(Roldão e Bulgacov, 2006)
Morremos um pouco a cada dia.
Mudamos todos os dias para poder sobreviver e VIVER.
Viver é morrer. É ir embora.
É deixar ir. Renovar-se.
Há
um texto que é atribuído a Fernando Pessoa. (Não sei se é dele,
mas é um texto bonito)
"Viva
a morte de cada dia" :
"Nós
estamos acostumados a ligar a palavra morte apenas à ausência de
vida e isso é um erro. Existem outros tipos de morte e nós
precisamos morrer todo dia.
A morte nada mais é do que uma
passagem, uma transformação. Não existe planta sem a morte da
semente, não existe embrião sem a morte do óvulo e do
esperma, não existe borboleta sem a morte da lagarta, isso é
óbvio!
A morte nada mais é do que o ponto de partida para o
início de algo novo. É a fronteira entre o passado e o
futuro.
Se você quer ser um bom universitário, mate
dentro de você o secundarista aéreo que acha que ainda tem muito
tempo pela frente.
Quer ser um bom profissional?
Então
mate dentro de você o universitário descomprometido
que acha que
a vida se resume a estudar só o suficiente para fazer as
provas.
Quer ter um bom relacionamento?
Então mate dentro
de você o jovem inseguro ou ciumento
ou o solteiro solto que
pensa poder fazer planos sozinhos,
sem ter que dividir espaços,
projetos e tempo com mais ninguém.
Enfim, todo processo de
evolução
exige que matemos o nosso "eu" passado,
inferior.
E, qual o risco de não agirmos assim?
O risco está
em tentarmos ser duas pessoas ao mesmo tempo,
perdendo o nosso
foco,
comprometendo nossa produtividade e,
por fim,
prejudicando nosso sucesso.
Muitas pessoas não evoluem porque
ficam se agarrando ao que eram,
não se projetam para o que serão
ou desejam ser.
Elas querem a nova etapa,
sem abrir mão da
forma como pensavam ou como agiam.
Acabam se transformando em
projetos inacabados,
híbridos, adultos "infantilizados".
Podemos
até agir, às vezes, como meninos,
de tal forma que não matemos
virtudes de criança
que também são necessárias a nós,
adultos, como:
brincadeira, sorriso fácil, vitalidade,
criatividade, etc...
Mas, se quisermos ser adultos,
devemos
necessariamente matar pensamentos infantis,
para passarmos a
pensar como adultos.
Quer ser alguém
(líder,
profissional, pai ou mãe, cidadão ou cidadã, amigo ou
amiga)
melhor e mais evoluído?
Então, o que você precisa
matar em si ainda hoje
para que nasça o ser que você tanto
deseja ser?
Pense nisso e morra!
Mas, não esqueça de renascer
melhor ainda!”
O
passado não volta mais
O
futuro é um mistério
O
presente, é um PRESENTE, é a vida que se tem.
Na
Bíblia, no Salmo 90 lemos:
"Senhor
Tu tens sido o nosso refúgio (v.1)
Faze
com que saibamos como são poucos os dias de nossa vida para que
tenhamos
um
coração sábio (v.12).
Dá-nos
agora muita felicidade assim como nos deste muita tristeza no
passado,
naqueles
anos em tivemos aflições. (v.15)
(...)
E que os nossos descendentes vejam o teu glorioso poder (v.16)"
(Bíblia
on-line Nova Tradução na Linguagem de Hoje)
Carl Gustav Jung
Carl
Gustav Jung foi tema de um estudo sobre a idade adulta.
Estudei
esse livro escrito por Staude aos 29 anos, por conta da mais profunda
crise pessoal
que
já vivenciei ... e que pensei que igual a ela nunca iria mais passar
outra.
Hoje
já não me sinto mais tão segura disto.
Na
obra "O desenvolvimento adulto de C. G. Jung", Staude cita o
próprio Jung:
"Todo
indivíduo precisa de revolução, de divisão interior, de subversão
da ordem existente e
RENOVAÇÃO, mas sem impo-las aos outros, sob
o pretexto hipócrita do amor cristão, de
senso de responsabilidade social ou
de qualquer um dos mais belos eufemismos que caracterizam os desejos
inconscientes de
poder pessoal. Autoreflexão individual (...), o regresso do indívíduo ao seu ser mais profundo, (...) o
interesse pela psique humana é um sintoma desse regresso instintivo
ao si mesmo." (Jung
apud Staude,1995, p.16)
"Quais
foram os problemas que Jung enfrentou quando se aproximou da meia
idade, e como ele os resolveu? Ele tinha de passar pela dolorosa
dissolução de sua velha estrutura de vida e experimentar seus
sentimentos de culpa, perda, solidão, isolamento e até mesmo
fracasso. Tinha de enfrentar a dolorosa realidade do seu processo de
envelhecimento e a inevitabilidade de sua morte. (...) A partir de
sua própria experiência, Jung concluiu que a tarefa da segunda
metade da vida era o desenvolvimento do Self, trazendo a ele maior
unidade harmonia e fundamento do que se poderia atingir só por meio
do desenvolvimento do ego."
(Jung
apud Staude,1995, p.72, 73)
Nesse
período de crise, "Jung achou que ' na medida em que conseguiu
traduzir as emoções em imagens – isto é, achar as imagens
ocultas nas emoções – tornou-se interiormente tranquilo e ganhou
novas forças. Ele sentiu que se não tivesse decifrado seus segredos
talvez pudesse ter sido esmagado por eles. Ele descobriu que o
inconsciente tende a expressar-se numa linguagem estravagante(...) até mesmo de
uma forma bombástica. ( Jung apud Staude,1995, p.80). "Quando
emergiu da crise da meia idade, Jung encontrou consolo, e a
integração psíquica chegou-lhe através da pintura, da escultura e
da navegação. Ele sentiu que estas atividades físcas e artísticas
lhe davam equilíbrio...(p.87). A partir desta perspectiva mais
profunda do Self, a razão parecia um valor menos importante para
Jung. Ele começou a valorizar mais a experiência religiosa e
mística do que a compreensão racional.(p.92)
"Os
anos durante os quais busquei minhas imagens interiores foram os mais
importantes da minha vida – neles tudo o que era essencial foi
decidido. Levei praticamente quarenta e cinco anos para destilar, no
recipiente do meu trabalho científico, o que vivi e escrevi até
essa época."
(Jung
apud Staude,1995, p. 71)
"Embora
o padrão geral da crise da meia idade seja comum, as respostas a ela
diferem. A antiga caracterização chinesa para 'crise' também quer
dizer 'oportunidade'. A partir do exemplo da experiência de vida de
Jung, podemos ver que esse período é uma época de grandes
oportunidades
para o DESENVOLVIMENTO do Self; é também um período cheio de
perigo. Só uma pessoa muito forte poderia ter sobrevivido ao
distúrbio psíquico que Jung experimentou na meia idade. Sabemos de
outros, (...) que foram incapazes e ficaram loucos." (p.94)
Outros, vários deles pensadores e escritores, tal qual Jung passaram
pela crise e foram por ela fertilizados em sua própria criatividade,
escrevendo depois dela com muito maior profundidade. Houve um grande
impacto positivo criativo dessa vivência de vida em seus trabalhos
posteriores derivados de uma compreensão maior da crise advinda na
meia idade. Segundo
Staude (op. cit. p.102), "Ao contrário de Freud e seus
seguidores, que viam a religião como uma neurose infantil, (...)
Jung considerava que o desenvolvimento psicológico estava muito
próximo do desenvolvimento moral e espiritual. Jung descobriu que
para a maior parte de seus pacientes, a cura e a globalidade eram
geralmente acompanhadas por experiências religiosas de uma espécie
ou de outra. Na sua opinião, a religião era importante para o
desenvolvimento adulto porque afetava a pessoa como um todo onde os
processos essenciais de desenvolvimento ocorriam no inconsciente.
(...) ". Lembra Staude, que Ele acreditava que "na última
fase da vida os valores espirituais e culturais se tornam
incrivelmente mais importantes. (...) Um objetivo espiritual que
transcende o homem puramente natural e sua existência mundana
constitui uma necessidade essencial para a saúde da alma. (op.
cit.p.119).
Para
Jung, a tarefa da idade adulta é a INDIVIDUAÇÂO, e uma das possibilidades deste processo
é a de gerar uma potente criatividade e integridade pessoal, e na realização
desta tarefa na meia idade, a importância da espiritualidade tem o
seu valor garantido na ótica Junguiana. Com ele aprendemos, nos esperançamos e inspiramos, através do fato de saber que pode ser difícil essa passagem do meio da vida, mas ela é possível, tanto quanto, necessária para o amadurecimento, a fim de nos tornarmos realmente, ADULTOS.
vídeo 5 (ver referências)
Flávia Diniz Roldão Psicóloga, Pedagoga e Teóloga. Psicoterapeuta individual, de casais e familias. Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano
BULGACOV Y. L.M. e ROLDÃO, F. D. Metamorfoses da identidade: manifestações culturais e artísticas. In; CAMARGO, D. e BULGACOV, Y. L. M., Identidade e emoção. Curitiba: Travessa dos editores, 2006.
CASTRO, Clóvis P. Transformados pela palavra de Deus. São Paulo: W4 Comunicação e editora, 2005.
HOLLIS, James. O Projeto Éden: a busca do outro mágico. São paulo: Paulus, 2002.
Existe um tema que tem sido pouco destacado na literatura científica em língua portuguesa no campo da psicoterapia de família, casais e sistemas:a vergonha. O fato deste tema não ter merecido ainda entre a maioria dos estudiosos e clínicos, um grande destaque, não significa que ele se manifeste pouco na vida das pessoas ou apareça pouco na clínica e demais relações de ajuda, mas sim, que ele tem sido pouco trabalhado enquanto categoria central nas reflexões e estudos dos psicoterapeutas e outros profissionais.
Dias atrás, trabalhando na clínica com pessoas em sofrimento psíquico devido a este problema, fui buscar referencial teórico que me ajudasse a compreendê-lo melhor, e me deparei com a obra do neuropsiquiatra Boris Cyrulink: "Dizer é morrer: a vergonha".
O livro aborda este tema desconcertante, de maneira profundamente empática e inquietante em suas primeiras páginas. Resolvi compartilhar com você, leitor deste blog, um trecho das duas primeiras páginas, pois ao ler este trecho, percebi-o como altamente sensibilizador para a importãncia e o cuidado que esta temática deve merecer por parte dos profissionais da área de ajuda. A pessoa que em seu íntimo já sofre tendo que lidar com a vergonha, não necessita ter iatrogenicamente que lidar também com a culpa como sintoma secundário instalado em si, pela forma às vezes pouco empática, com a qual um profissional pode abordá-la, na tentativa de ofercer ajuda. Fato este que não é difícil de ocorrer, se o profissional não estiver atento ao seu papel de acolhimento da queixa sem realizar um julgamento de valor, mas abordar o outro que sofre partir de uma postura empática.
Há uma metáfora que aprecio bastante para pensarmos o que é empatia: empatia é calçar os sapatos do outro para poder saber onde lhe dói ou aperta os pés. É o ato de solidarizar-se com o outro e perguntar-se ao calçar os seus sapatos: Porque ele não consegue caminhar? Qual o tamanho dos seus pés ? Porque o sapato lhe aperta? Onde o sapato foi laceado e agora não mais acomoda-se perfeitamente aos pés?
Feldman e Miranda em seu livro "Construindo a relação de ajuda", citam Paul Tournier que entende ser bela, intensa e libertadora a experiência de se aprender a ajudar o outro. E escreve: "Ninguém pode se desenvolver livremente nesse mundo, nem encontrar uma vida plena, sem sentir-se compreendido por uma pessoa pelo menos..."
Em publicação anterior no artigo "Pistas para a construção de uma pastoral do cuidado junto a pacientes fora de possibilidades terapêuticas e seus familiares", já mencionamos a idéia de Cecily Saunders por nós corroborada, de que " o sofrimento humano somente é intolerável quando ninguém cuida." ( Souza e Roldão). Mas para poder cuidar e oferecer ajuda efetiva mediante o sofrimento do outro é preciso sensibilidade, tato e empatia.
O psicólogo norte americano Carl Rogers realizou na década de 60 do século passado, um dos estudos mais importantes na área da psicoterapia. Ele investigou em diferentes abordagens teóricas, dentre outras questões, o que gerava resultados positivos no processo psicoterápico, e encontrou em sua pesquisa o surpreendente fato de que, os efeitos positivos em psicoterapia "não estavam ligados à abordagem teórica ou às técnicas usadas pelos terapeutas." Ou seja, "o crescimento do cliente não é função da abordagem teórica ou das técnicas usadas pelo terapeuta." O que a pesquisa demonstrou foi que, algumas características individuais do terapeuta no seu relacionamento com o cliente, suas posturas ou atitudes terapeuticas, têm impacto positivo no processo psicoterápico, independente da denominação teórica que o terapeuta usa. Tais características que influenciam positivamente o processo de ajuda são: empatia, aceitação incondicional e coerência.
Refleti então, sobre a importãncia do acolhimento empático da queixa.As vezes, as pessoas entram em situação de sofrimento psiquico devido ao fato de sofrerem caladas algumas de suas dificuldades e problemas enfrentados na vida, por vergonha de se exporem à outra pessoa com medo de sofrerem acusações, desqualificação, discriminação e não aceitação de quem elas são. Ninguém deseja passar por isso. As pessoas, se puderem, afastam-se do que lhes faz sofrer. E para além de seus problemas e dificuldades já enfrentados, quando a pessoa busca uma relação de ajuda e ainda vem a sofrer iatrogenicamente destes problemas que ela anteriormente não tinha, aumenta-se o seu sofrimento ainda mais, e a partir de então, a pessoa passa a ter ainda mais um outro problema para lidar além daquele pelo qual incialmente ela pos-se a buscar ajuda. Por isso, empatia é absolutamente fundamental quando um cuidador está lidando com a busca de ajuda numa situação que envolve o sentimento de vergonha (e que por vezes gera o segredo, que também pode ser fonte de sofrimento psíquico).
Mas além da vergonha, que pode gerar o segredo, ou em outros casos, do segredo, que pode gerar a vergonha, outro fator também pode estar ligado à vergonha: as escolhas mal realizadas que geraram atitudes das quais as pessoas se envergonham. Porém, é difícil que alguém passe pela vida sem nunca ter passado por esse tipo de experiência, e sendo assim, esse é um fato muito comum entre os seres humanos. O problema, é que as vezes não acolhemos, e/ou nos esquecemos daquele nosso lado que não é tão bom, tão agradável a nós, e quando a situação ocorre com o outro, também não acolhemos as suas falhas com a devida empatia e solidariedade.
O tema das escolhas realizadas na vida é outro tema bastante complexo, especialmente nos dias atuais. Para mencionar apenas um motivo implicado neste processo de complexidade, destaco aqui o fato da longevidade que os humanos tem alcançado nos últimos anos. Temos vivido 70, 80 e as vezes até 90 anos, mas muitas das escolhas que são absolutamente centrais e fundamentais na vida foram feitas na adolescência aos 16, 18, 21 anos. Contudo temos que dar conta de administrar e conviver com tais escolhas não apenas por mais 20 ou 30 anos até morrermos, como acontecia no passado quando as pessoas morriam mais cedo por volta dos 45, 50 ou 60 anos, mas conviver e administrar o impactos destas escolhas por mais 30, 40, 60 anos ou mais. E as vezes a vergonha é fruto do impacto destas escolhas precoces do tempo da imaturidade, e portanto nem haveria muita razão de ser. Mas as vezes não se trata de uma questão de razão, ocorre que por fatores diversos aí implicados, ela instala-se e atrapalha a vida das pessoas. Daí a importãncia destas irem buscar ajuda para trabalharem esta questão na sua vida. Mas os profissionais da área da ajuda precisam estar adequadamente preparados e teoricamente instrumentalizados para lidar com esse tema. Grande desafio tem os seres humanos ao terem que administrar o impacto da longevidade em sua vida. Um campo vasto para pensarmos na importância da qualidade de vida e da saúde mental. Grande desafio possuem os profissionais da área de ajuda ao se prepararem humanamente e tecnicamente para abordarem essa temática nas relações de ajuda.
Vamos então ao trecho do livro de Cyrulink. Espero que a leitura do mesmo sirva-nos como instrumento de sensibilização, para com a delicadeza que merece o tratamento do tema da vergonha na psicoterapia, e em outras formas de relação de ajuda às pessoas:
"Se querem saber porque eu não disse nada, basta tentarem descobrir o que me forçou a calar. As circunstâncias do acontecimento e as reações do meio são coautoras do meu silêncio. Se eu lhes contar o que aconteceu comigo, vocês não vão acreditar, vão dar risada, tomar o partido do agressor, (...) ou pior ainda, ter dó de mim. Seja qual for sua reação, bastará eu contar para me sentir mal sob seu olhar.
Portanto, vou me calar para me proteger, vou pôr na fachada apenas a parte da minha história que vocês são capazes de suportar. A outra parte, a tenebrosa, viverá sem uma palavra nos subterrâneos da minha personalidade. Essa história sem palavras governará nossa relação porque, em meu foro íntimo, contei interminavelmente palavras não compartilhadas, relatos silenciosos. As palavras são pedaços de afeto que as vezes transportam um pouco de informação. Uma estratégia de defesa contra o indizível, o impossível de dizer, o penoso de ouvir acaba de estabelecer entre nós uma estranha passarela afetiva, uma fachada de palavras que permite deixar na sombra um episódio inverossimil, uma catástrofe na história que eu me conto sem cessar, sem dizer uma palavra. O não compartilhamento das emoções instala na alma do ferido uma zona silenciosaque fala sem parar, uma espécie de baixo falante em certo sentido, que murmura no fundo de si um relato inconfessável. É difícil calar, mas é possível não dizer. Quando a pessoa não se exprime, a emoção se manifesta de forma ainda mais intensa sem palavras. Enquanto está sofrendo, um ferido não fala, ele cerra os dentes e só. Quando o não dito hiperconsciente não é compartilhado, ele estrutura umapresença estranha. ' Embora a conversa desse homem seja fluente, sinto que ele fala para esconder o que não diz.' O recalcamento organiza interações diferentes. Inicialmente ele é inconsciente. Com os sonhos, contudo, surgem cenografias estranhas que deixam escapar enígmas que pedem para ser decifrados. O envergonhado aspira falar, gostaria muito de dizer que é prisioneiro de uma língua muda, do relato que ele conta para si em seu mundo interno, mas que não pode lhes dizer de tanto que teme o olhar dos outros. Acredita que vai morrer se falar. Então conta a história de outra pessoa que, como ele, sofreu um baque terrível. Ele escreve uma autobiografia em terceira pessoa e se espanta com o alivio que lhe proporcionou o relato de outra pessoa igual a ele, um representante de si, um porta voz. O fato de ter dado uma forma verbal ao baque sofrido e tê-lo compartilhado apesar de tudo, permitiu-lhe abandonar a imagem do mosntro que acreditava ser. Voltou a ser como todo mundo, porque você o entendeu (...)."
REFERÊNCIAS:
CYRULINK, Boris. Dizer é morrer: a vergonha. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
FELDMAN, Clara e MIRANDA, Márcio L. Construindo a relação de ajuda. 14 ed. Belo Horizonte: Ed Crescer, 2004.
SOUZA, Roberta C. e ROLDÃO, Flávia D. Pistas para a construção de uma pastoral do cuidado junto a pacientes fora de possibilidades terapêuticas e seus familiares. In: Revista Via Teológica, n. 16 vol 1. junho de 2008.
Flávia Diniz Roldão Psicóloga, Pedagoga e Teóloga. Psicoterapeuta individual, de casais e familias. Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano. Contato:flaviaroldao@gmail.com
O
filme “Pronta para amar” é um filme sobre o viver e o morrer.
Nem todas as pessoas que respiram estão vivas. Nem todas as que se
pensam vivas plenamente estão. Nem todas as pessoas que vivem a
terminalidade da vida, morrem de repente e são pegas de surpresa.
“Mares tranquilos não fazem bons marinheiros.”
As pessoas morrem
da mesma forma como vivem ? Será que precisa ser assim? As pessoas
podem aprender a viver e a morrer todos os dias. Esta é uma
oportunidade latente.
Estamos todos morrendo ? Todos os dias ?
Estamos todos caminhando para uma vida que transcende o “mundo das
aparências”, todos os dias ? Estamos todos voltando para a casa ?
Ou estamos todos indo embora ?
Estamos todos caminhando para a morte ou para a vida ?
Diferentes mapas mentais... diferentes visões de mundo trazem diferentes respostas a perguntas que todos fazemos um ou outro momento da vida.
"Quem não está ocupado nascendo, está ocupado morrendo."
Indico a apreciação deste filme a todos aqueles que estão pensando a morte e a vida.
Flávia Diniz
Roldão Psicóloga, Pedagoga e Teóloga. Psicoterapeuta individual, de
casais e familias. Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento
humano. Contato:flaviaroldao@gmail.com