quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

IDOSOS: Ser ou não ser - eis "a" questão!




Idoso: "ser ou não ser , - eis a questão"! (William Shakespeare)


Conforme a ideia de alguns intelectuais, tal qual Paulo Freire, as pessoas não são, elas estão! Pois a vida é dinâmica e muda (e as vezes bem depressa!). Como escreveu Mario Quintana, no poema "O Tempo", quando se vê... a vida já passou...




A vida é como uma peça de teatro que não permite ensaios - destacou Charles Chaplin.

Somos mutantes. Somos o que fizemos, e principalmente, "estamos sendo" o que fazemos da nossa vida a cada momento.

Se tratamos alguém com violência, estamos nos tornando uma pessoa violenta, se mentimos a alguém estamos nos fazendo mentirosos, mas, se ao contrário tratamos o outro com gentileza, honestidade, atenção e cuidado, nos tornamos concretamente na prática, uma pessoa gentil, honesta, atenciosa e cuidadosa.

 Estas ações vão fazendo de nós quem vamos sendo, quem vamos nos tornando a cada dia concretamente.Na vida as coisas podem mudar sempre, e a qualquer momento!  E assim, vamos construindo nossa história de vida, num livro, que jamais uma página virada se repete absolutamente igual à outra (ou que se repete! - embora não absolutamente igual - por pura teimosia de nossa não atenção e cuidado com a nossa própria história de vida).

Ser ou não ser? - Eis a questão que não pode ser negligenciada especialmente na última etapa da vida - quando pela própria lógica do envelhecimento, não nos resta "todo" tempo.

Mas o tempo que resta pode ser vivido com qualidade. Somos (em parte) arquitetos do nosso tempo, da nossa história... de VIDA. Para isso, é preciso ter para consigo mesmo uma atitude atenciosa. É preciso fazer revisões na vida quando necessário. Abrir mão de coisas, ir atrás de outras coisas novas e diferentes. Ser proativo.

A vida só termina quando damos o último suspiro. Mas é preciso atenção... pois alguns "vivem sem viver", vivem como se estivessem mortos, vivem sem qualidade de vida,verdadeiros "mortos vivos". Isso é possível? Claro, não apenas possível, mas, é uma experiência de vida que não é tão incomum. E vale ainda lembrar os "suicídios silenciosos" que ocorrem através do comportamento autodestrutivo de algumas pessoas no dia a dia.

A vida passa ligeiro...
"Ser ou não ser? - Eis a questão de reflexão fundamental para as pessoas a partir da meia idade, e especialmente, para os idosos. 

O que você está fazendo da sua vida?

Você tem se tornado a pessoa que gostaria de ser nesta vida?

Você aprecia a pessoa que estás sendo?

Quais tarefas ainda desejas completar nesta "passageira" vida?





Fonte das imagens: 
http://www.imagem.eti.br/clipart/amor_6.html 


Flávia Diniz Roldão
(Psicóloga. Atua na psicologia clinica com idosos e famílias. Trabalha com a disciplina "Psicologia da Terceira Idade". É professora colaboradora em programas de Educação Permanente de Idosos no formato Faculdade Aberta da Terceira Idade.)
contato: flaviaroldao@gmail.com 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

GENER(A)TIVIDADE



Da fecunda interconecção
Dos "supostos" diferentes
Nasce a conexão criativa

(Se fará mutamente recursiva?)

Re-combinação de dados
Anteriormente jamais imaginados
Mas nem por isso inexistentes
Possibilidades latentes

Conexão generativa
De surpreendentes
Novos modos de existir

Superação dos padrões de linearidade
Autotranscendência evolutiva do sistema
Em novas conexões complexas
Antes inexploradas
Por fixação de fronteiras rígidas

A nova permeabilidade
Nascida do afofar a vida
Acolhendo a flexibilidade
Recém exercício de amplitude

Capturou 
E construiu
Novas possibilidades

A existência se expandiu
Expressando renov-ação
Mais uma vez
Se afirmou a VIDA!



Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga
flaviaroldao@gmail.com 

sábado, 30 de agosto de 2014

Nem sempre vai ser assim



Hoje foi um dia de trabalho intenso. Depois do trabalho, o merecido descanso. Um passeio pela livraria, e agora o momento da escrita. Escrever também me descansa. Escrever me deixa mais leve,. Porque as vezes as palavras que estão dentro de mim são como um filho que pede para ser parido.

Aprendi muito com alunos e pessoas participantes de uma roda de conversa em uma supervisão de estágios em Psicologia Comunitária hoje, e escrevo este texto como um 'aprendizado" que deixo aos meus filhos.
O aluno que dirigiu a roda narrou a seguinte história, que lhe foi contada anos atrás por um amigo:

"Em uma propriedade rural, uma família muito bem sucedida em suas plantações e comercializações, foi de repente surpreendida por um furacão que passou e devastou a plantação sobre a qual eles se implicaram dias, desde a escolha das sementes, e depois o plantio, e na qual  se detiveram gastando um bom tempo cuidando.

Empobrecidos, o pai diante do filho olha para ele e diz:"Meu filho, nem sempre vai ser assim! Sigamos..."

Tudo passou e quando veio o tempo certo, novamente eles começaram todo o trabalho de escolha das sementes, o preparo da terra, a semeadura e todo o cuidado da plantação.

Desta vez tudo ajudou, e eles tiveram uma enorme fartura na colheita.

Pai e filho estavam juntos conversando novamente, e celebrando aquela grande benção. O pai olha para o filho profundamente e lhe diz: "Meu filho, preciso lhe dizer uma coisa, é importante que você aprenda e saiba: - Nem sempre vai ser assim!"

Uma mulher já idosa, certa vez se expressou: "-Minha mãe sempre dizia: minha filha, todo mal tem um início, e também tem um fim".

Dá esperança lembrar destas duas histórias.
Faz refletir que na vida há coisas sobre as quais não temos controle, e nos afetam, há outras porém, sobre as quais temos algum controle e podemos/precisamos agir.



É bom saber, que histórias são palavras (metáforas) que podem iluminar a forma de viver.

Certa vez eu comentava com uma pessoa: "Quando a vida não nos dá o privilégio de trazermos de berço os recursos que necessitamos para construir a vida que queremos, é preciso empenhar-mo-nos em consegui-los ou construí-los. Quando não obtemos na infância os recursos necessários que precisamos para realizarmos com alguma lucidez as escolhas necessárias de serem feitas durante a vida para que alcancemos minimamente uma vida que valha a pena ser vivida, é preciso correr atrás deles, afinal, como dizia Freire citado por Guzzo (2005), "há uma vocação ontológica para o Homem, enquanto sujeito que opera e transforma o mundo".

E o primeiro mundo sobre o qual cada pessoa pode começar a operar para transformar, é o seu próprio.

Nós mesmos, somos um dos instrumentos disponíveis para a transformação que desejamos no nosso mundo.

Escreveu Eliane Brum: "Nossa vida é a nossa primeira ficção". Eu diria: nossa vida é a nossa primeira Obra CONCRETA.



"Nem sempre vai ser assim."
Mas ninguém sabe, como o futuro será.
O que é certo, é que como disse alguém um dia: "todo mal tem um início, e também tem um fim".
Mas se o que é mal passa. O que é bom também. Ninguém consegue prender o tempo. O que ficam são as memórias. E como disse Brum (2014) referindo-se às sua: "Esta é minha memória. Dela eu sou aquela que nasce, mas também sou a parteira."
Não somos fantoches ou múmias atadas. Somos seres humanos dotados de capacidade (ao menos algumas) de ação e intervenção sobre a vida, a nossa e as dos outros, desde as memórias que construímos, alimentamos e como as narramos, até as ações que fazemos ou deixamos de realizar.
Simone de Beauvoir foi citada por Frain (2013): "O mundo real é uma verdadeira bagunça. É minha vida, e a vivi como quis vivê-la..."

O tempo passa... não pede licença... mas cada pessoa pode escolher (ao menos em certa medida), como vai diante da vida se posicionar.



O futuro, está ligado ao presente 
de muitas e diferentes formas.
"Nem sempre vai ser assim!"




REFERÊNCIAS:
BRUM, Eliane. Meus desacontecimentos. SP: Leya, 2014.
GUZZO, Raquel S. L. Escola amordaçada: compromisso do psicólogo com este contexto. In: MARTINEZ, A.M. Psicologia Escolar e Compromisso Social: novos discursos, novas práticas. Campinas, SP: Alínea, 2005.

Imagens coletadas na internet, disponíveis em:
http://questaodecoaching.com.br/tag/mudanca/
http://www.ideiademarketing.com.br/2012/11/01/medo-das-mudancas-os-desafios-do-endomarketing/
http://mdemulher.abril.com.br/casa/reportagem/reforma-construcao/saiba-como-fazer-mudanca-transtorno-613377.shtml
http://despertandodeuses.blogspot.com.br/2012/09/como-remover-o-medo-da-mudanca-pessoal.html


Flávia Diniz Roldão
Psicóloga
flaviaroldao@gmail.com 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

VOCÊ TEM PEDRAS OU PORTAS NO SEU CAMINHO ? O rio das perdas.



Hoje pela manhã li um texto de Lya Luft sobre um grupo de psicólogos que trabalha num grande hospital e lhe solicitou uma palestra sobre perdas: O rio das perdas.

Um hospital é um local para pessoas que estão cuidando de alguma doença. Local onde se busca cuidar ou trazer de volta a VIDA.

Mais do que o texto em si, o título ficou ressoando em minha cabeça: “O rio das perdas”. E um trocadilho com a palavra perdas, ressoava também: pedras...pedras e perdas, perdas e pedras.

Lembrei do poema sobre a pedra no caminho de Drumond: “no meio do caminho havia uma pedra. Havia uma pedra no meio do caminho da VIDA”. Passei um tempo refletindo sobre perdas e pedras. E me lembrei da paráfrase de Castro: “Uma porta no meio do caminho”: no meio do caminho tinha uma porta... e o trecho onde ele cita Içami Tiba: “Para a vida, as portas não são obstáculos, mas diferentes passagens. (…) Mas a vida também pode ser dura e severa. Se você não ultrapassar a porta, terá sempre a mesma porta pela frente. É a repetição perante a criação, é a monotonia monocromática perante a multiplicidade das cores, é a estagnação da vida."
Passagens, rios... lembram correntezas. Pedras que são levadas pelas correntezas das águas.

Na vida, enquanto vamos vivendo ocorrem muitos fatos que empedram as emoções. Essas pedras, obstruem a livre circulação e a passagem da VIDA, o sangue que circula pelo corpo e o mantém VIVO. Tal qual no sistema circulatório, onde pode ocorrer obstruções que podem levar a um infarto do coração, na vida essas pedras emocionais que obstruem o caminho, podem levar a diferentes infartos: o infarto das relações, o infarto da família, o infarto da vida profissional, o infarto da felicidade, etc.

Mas ao invés de pedras no caminho da vida, podemos buscar encontrar, enxergar e abrir as “portas no caminho”. Amigos, novos relacionamentos, novos projetos de vida, recomeços e partidas podem ser “portas no caminho”. Precisamos abrir portas no caminho da vida, quando as pedras no caminho estão obstruindo passagens. Uma porta é apenas uma porta. Para você entrar, você precisa encontrá-la e abrí-la. Ela poderá ser encontrada e se manter fechada, até que alguém resolva abrí-la e entrar por ela. Podemos substituir as pedras no caminho por portas no caminho? Escutei uma frase dias atrás que me chamou muito a atenção: “Há pessoas que ficam lambendo as próprias feridas”. Sentem prazer em ficar ali se lambendo e não vão em busca de cura.

Fortes correntezas de águas podem lavar e levar as pedras do caminho. A água é símbolo de lavagem, limpeza, purificação. Na vida, há momentos em que as situações se estabelecem como verdadeiras fortes correntezas. Correntezas que levam... correntezas que limpam... correntezas que desobstruem as pedras do caminhos e limpam a área para que as águas voltem a correr desimpedidas. São águas purificadoras.

E pensando em águas purificadoras me vem à mente a imagem do choro que limpa a alma. Dizem que o remédio do luto é choro. O choro que lava a alma. E depois dele, quando ele seca, a alma sente-se lavada e a dor da perda se vai. Rio de perdas que passa pela vida.

Na Bíblia há um texto de esperança: “Os que com lágrimas SEMEIAM, com júbilo ceifarão”. Tem choros que são necessários. Como escreveu Judith Viorst: Há perdas que são necessárias, “Perdas Necessárias”. A perda da infância por exemplo, ou... a perda de vícios, ou a perda de PESOS: são perdas necessárias. Para crescer é necessário perder... deixar ir certas coisas, comportamentos e sentimentos. Mudar!

Quero trocar perdas e pedras por portas no caminho a partir de hoje. Abrir portas e entrar por elas. Portas... portais... que me levem renovadamente de volta para o fluir da VIDA.

Castro lembrou em seu artigo intitulado “Uma porta no caminho” que “há um milagre narrado no Evangelho de Marcos, capítulo 7, que apresenta Jesus curando um surdo-mudo: 'Depois de levá-lo à parte, longe da multidão, Jesus colocou os dedos nos ouvidos dele. Em seguida, cuspiu e tocou na língua do homem. Então voltou os olhos para o céu e, com um profundo suspiro, disse-lhe: ‘Efatá!’, que significa "abra-se!'. Com isso, os ouvidos do homem se abriram, sua língua ficou livre e ele começou a falar corretamente”. ‘Efatá’ é uma palavra do aramaico, língua falada por Jesus, e próxima do hebraico. Esta expressão faz parte do mesmo grupo de palavras ligadas ao sentido de abertura. Jesus não se limitou à cura de uma deficiência física. Ao dizer ‘Efatá’, ele apontou para algo além da abertura da boca e dos ouvidos. Abriu uma porta e deu àquele homem a possibilidade de uma nova vida.”

E por falar em homens, essa semana estava lendo o livro “A grande aventura masculina”. Nesta obra, o autor apresenta sua tese de que “tornar-se homem é a grande e mais perigosa incumbência da vida de um homem.” E lembra a importância fundamental de um pai na vida de um menino: um homem se torna homem na convivência com outros homens. Ele defende que a maior herança que um pai pode deixar para seu filho é a sua demonstração de masculinidade. Contudo, adverte ele: nosso tempo parece ser um tempo sem pai, um tempo de meninos órfãos de pais. E o grande numero de lares constituídos por mulheres como as responsáveis pela criação de filhos em nosso país leva-nos a concordar com a ideia do autor. E para ele, temos hoje muitos homens inacabados, meninos vivendo em corpo de homem, mas que não foram iniciados no caminho de aprenderem a tornarem-se homens, pois para ele a iniciação masculina é uma “JORNADA”, uma série de muitas experiências entrelaçadas que servem de guia, iniciação para que meninos tornem-se homens, passando e crescendo pelos vários ESTÁGIOS da vida, desde a infância até a velhice, desde saberem na meninice que são filhos amados, até chegarem a serem SÁBIOS na velhice. Afinal, qual é a tarefa e a contribuição de um idoso, senão a sua SABEDORIA, depois de ter vivido intensamente as diferentes etapas de sua vida? Diz o autor: “o resultado de termos abandonado a iniciação masculina é um mundo de homens inacabados, e não iniciados”.

Mas na imperfeição característica da vida humana, podemos pensar também sobre as mulheres . É preciso pensar no processo pelo qual uma mulher aprende a verdadeiramente tornar-se mulher: o processo da iniciação feminina? O assunto me lembra o livro “Mulheres que correm com lobos”. Nele CLARISSA PINKOLA ESTES, tal qual JOHN ELDREGE em seu livro “A grande aventura masculina”, abordam respectivamente, ela sobre o resgate do ser mulher e ele, sobre a iniciação masculina dos homens, contando e relembrando histórias. Ela, relembra histórias seculares, ele, faz o mesmo relembrando histórias contidas na Bíblia e contando as suas próprias histórias de vida.

Lembro-me de uma pergunta de Aquarela no poema “Aprendendo a ser feliz”: “Vida! Que vida é esta que não ensinou a maioria a viver?” É preciso então aprender... se queremos não apenas sobreviver... mas... VIVER! Precisamos reconhecer que somos aprendizes, e adotarmos uma postura de seres ensináveis diante da vida. Aprendentes que deixam as correntezas levarem as pedras das experiências e emoções embrutecidas. Aprendentes que abrem novas portas e criam coragem suficiente para entrar por elas. Aprendentes da VIDA que deseja ser vivida e não apenas sermos sobreviventes, pois viver, é muito … mas muito mais do que apenas SOBREVIVER.

E assim vamos seguindo a vida … “numa passarela de uma Aquarela, que um dia enfim... des-co-lo-ri-rá.” (Toquinho).

                                            A alegria e a dor são como um tecido espesso,

uma veste para a alma.

Sob cada angústia e sofrimento

perpassa a alegria, como fios de seda.

Está certo que seja assim,

O homem foi feito para a alegria e para a dor,

e quando nos convencermos bem disso,

caminharemos mundo a fora.

(Rubens Correa)
referências:
CASTRO, C. P. Uma porta no meio do caminho.
ELDREDGE, J. A grande aventura masculina.
ESTÉS, C. S. Mulheres que com lobos.
Bíblia.
Fonte de imagem:

quarta-feira, 4 de junho de 2014

APRENDENDO A SER LEVE no contexto da família

 

(Texto construído a partir de uma interpretação livre 
 da mensagem compartilhada pelo Rev. Edison Primo
na III IPI de Curitiba em 31 de maio de 2014)


"Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.
Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas.
Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve".
                                                          Mateus 11:28-30 (NVI)


Vocês estão cansados, enfastiados de religião?
                                                                    Venham a mim! 
Andem comigo e irão recuperar a vida. 
Vou ensiná-los a ter descanso verdadeiro. 
Caminhem e trabalhem comigo! 
Observem como eu faço! 
Aprendam os ritmos livres da graça! 
Não vou impor a vocês nada que seja muito pesado ou complicado demais. 
Sejam meus companheiros e aprenderão a viver com liberdade e leveza”.
(Mateus 11:28-30 - Bíblia A Mensagem)

 

Leve, significa de pouco peso, fácil de mover ou movimentar-se, termo contrário a pesado, antonimo de sobrecarga.

Jesus nesta passagem bíblica
(que aborda a questão da espiritualidade e não da religião pregada pelos fariseus de sua época) 
está perguntando aos seus ouvintes:
Vocês querem ser leves? Estão cansados? Sentem-se sobrecarregados?

Caso a resposta seja afirmativa, dá-lhes uma direção:
“Sejam meus companheiros e aprenderão a viver com liberdade e leveza” (Mt. 11:.30).


Há pessoas e famílias sobrecarregadas com cargas pesadas demais nesta vida. Estão a evitar que o peso da vida, da matéria, as esmague. Buscam diferentes caminhos para o alívio desses fardos.  Por vezes já realizaram sua busca em muitos recursos e diferentes espaços sociais que a vida oferece, na tentativa de encontrar caminhos na lida com os problemas cotidianos. A espiritualidade oferece saídas que são de uma outra lógica diferente da lógica material. Envolve o exercício da fé. É uma outra forma de conhecimento e intervenção na vida. Dentro desta lógica espiritual, Jesus oferece o caminho: “Venham a mim”. “Caminhem comigo”. Esse convite dá uma ideia de leveza que é criada... na caminhada.

Ser família é relacionar-se (exercitar-se? aperfeiçoar-se? mover-se?).
E uma relação entre dois ou mais seres humanos complexos é sempre uma empreitada pelos meandros da complexidade, um desafio! Mas não um desafio impossível, e pode ser um desafio passível de êxito, segundo as orientações do Cristo: “Eu vou ajudar vocês. Vou tornar leve o fardo e o jugo que carregam”. Jesus promete ser PRESENÇA atenciosa e ativa.

Para Primo, na prática ocorrem 3 mudanças no contexto da família quando seus membros trocam o jugo pesado que carregam pelo jugo de Jesus:
 
       1.  As pessoas passam a valorizar mais as RELAÇÕES com PESSOAS do que as coisas (coisas   de todos os tipos!).

       2.  As pessoas obtém conforto, segurança e tranquilidade, mesmo nos momentos difíceis, pois podem ter a confiança de que não estão sozinhas – Jesus (o seu mestre) está com eles. É sua fonte de resiliência – O TOTALMENTE OUTRO (Deus) é o outro significativo com quem eles podem contar.

       3.  Dentro do lar, as pessoas passam a manifestar Deus em SENTIMENTOS e ATITUDES (por exemplo, perdoando – que é um comportamento muito diferente da lei do “olho por olho e dente por dente").
 
 
    O texto aborda o termo canga ou jugo. Segundo Primo, na canga ou jugo, seguem dois bois. O boi mais experiente vai direcionando o caminho do mais fraco e inexperiente. Simbolicamente este mais experiente é Jesus Cristo, aquele que guia e auxilia a levar o fardo da vida. Tal qual também nos lembra o poema "Pegadas na areia".
 


Nos dias atuais, a utilização de metáforas ligadas ao ambiente rural pode não ser algo tão comum, pois o contexto urbano no qual vivem a maioria das famílias atualmente, é um contexto diferente deste. Porém, muitas das parábolas contadas por Jesus e narradas na Biblia utilizam símbolos do contexto rural, que era o contexto da época em que elas foram formuladas e contadas.

Há um convite realizado por Jesus neste texto. Um convite, é apenas um convite. Quem o recebe pode ou não responder positivamente. Mas essa é uma possibilidade: responder afirmativamente ao convite à leveza. De onde ela vem? Das facilidades da vida? Não. Da segurança de que nas dificuldades da vida os membros da família não estão sozinhos; podem contar com o Cristo que os ajuda a seguir com leveza.
Se formos observar o contetxto atual, na prática, atualmente, leveza não é um termo muito associado ao Cristianismo. Tal qual os fariseus na época de Jesus enfatizavam a lei duramente, por vezes a religião cristã deixou a sua essência em segundo plano. Ela deu ênfase demasiada à dureza da lei e dos rituais religiosos, em detrimento da vivência das Boas Novidades da graça, trazida pelo Evangelho proclamado pelo Cristo. Mas este texto bíblico é claro, Jesus afirma: “Aprendam os ritmos livres da graça! Não vou impor a vocês nada que seja muito pesado ...”

É possível trocar um jugo pesado por outro mais leve. Trans-formar-se! A vida pode ser mais leve. A vida cristã pode ser leve. A vida em família pode ser leve. Isso é uma possibilidade aberta à todas as famílias. Não precisamos nos comportar como se fossemos imutáveis "cemitérios de automóveis enferrujados" (CALVINO, 1990).
 
O convite já foi feito. Porém, esse texto trata da questão da espiritualidade, esse é um assunto de fé, e pede uma resposta de fé. Uma resposta que só pode ser dada afirmativamente por alguém que crê na leveza como uma promessa, uma possibilidade, a partir do convite realizado e da direção dada pelo Cristo: “Venham a mim. Eu vou aliviar a carga de vocês.


REFERÊNCIAS
Mensagem transmitida por Edson Primo na III IPI de Curitiba, 31 de maio de 2014.
Bíblia NVI
Bíblia A Mensagem
CALVINO, Ítalo. Leveza. In: _____. Seis propostas para o próximo milênio. SP: Companhia das Letras,1990.

REFERÊNCIAS DAS IMAGENS:
1 http://br.freepik.com/vetores-gratis/familia-silhuetas-sombra-danca-preto-branco-inteligente-fundo-vetor-vida-livre_675612.htm
https://www.facebook.com/BrasilAline/photos/a.315223025223738.76294.268690599876981/684033338342703/?type=1&theater 
http://madujazz.wordpress.com/2010/11/28/vinde-a-mim/

 
Flávia Diniz Roldão
Teóloga. Psicóloga. Pedagoga.


domingo, 27 de abril de 2014

Intimidade é construção!

"O oposto de SOLIDÃO não é estar juntos,
é INTIMIDADE".
(Richard Bach)



Tive a oportunidade de participar do workshop sobre "O casal e a intimidade: o fortalecimento das conexões através da vulnerabilidade" com David Van Dyke neste final de semana (Faculdade Teológica Sul Americana).

Ele apresenta a ideia  de que INTIMIDADE é um processo recursivo, uma via de mão dupla, a possibilidade de "dar e receber" revelação. A revelação mais profunda do seu ser - de quem você realmente é. "É a revelação dos aspectos principais do EU na presença do parceiro. Um ato de amor e de VALIDAÇÃO". Ela é base, dos casais de longa duração.

Ele apresenta alguns problemas para o estabelecimento de relações de intimidade: "1-A tendência de escapar de você mesmo; 2- A tendência de se definir através do outro; 3- A tendência de sentir-se satisfeito em uma relação em função do que O OUTRO faz ou não faz..." (grifo meu).

Destaca a importância da intencionalidade à vulnerabilidade, no sentido de colocar-se em abertura ao companheiro, ESTAR PRESENTE!!! E diz: "A vulnerabilidade não traz segurança, e nem é um estado natural, mas é necessária para a INTIMIDADE." Afirma: "Casais com alta satisfação, sentem-se conectados." E convida os casais à reflexão: "COMO ESTAMOS NOS CONECTANDO UM AO OUTRO?" Alerta: "SOMOS CO-CRIADORES DO NOSSO RELACIONAMENTO".

Destaca no processo de desenvolvimento da intimidade o papel central da INTENSIONALIDADE. ("Você é o que você faz."). Nós (enquanto casal) somos aquilo que fazemos de nós mesmos. Temos a relação que construímos com nossa intencionalidade.

Ele destaca o papel fundamental de sermos intencionais e não reativos, bem como, o papel fundamental da nutrição do amor, apresentando a metáfora do jardineiro: "Regue as sementes do amor."

Compreende o convite para a interação como uma proposta ou oferta por atenção, um ato de "ir ao encontro". E cita Henri Nouwen:

"Se o medo é o maior inimigo da intimidade, o amor é o seu verdadeiro amigo."

Referência:
Módulo Internacional "O casal e a Intimidade: o fortalecimento das conexões através da vulnerabilidade, com David Van Dyke, Faculdade Teológica Sul Americana & Wheaton College Graduate School.

Fonte da imagem: facebook.

Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias.
Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato:
 
flaviaroldao@gmail.com

domingo, 30 de março de 2014

Você tem se lembrado de reciclar o seu lixo relacional ?



Dias atrás li um artigo bem interessante de Suely Engelhard: "Medidas para a reciclagem do Lixo Familiar".
Neste texto a autora trás o conceito de lixo relacional.
Escreve: "Nas interações afetivas a energia investida resulta em vivências que nutrem a relação eu-outro ou em toxinas relacionais que precisam encontrar um espaço de reciclagem."
Dessa leitura retirei algumas indagações que podem ser úteis de serem realizadas de tempos em tempos, visando uma reciclagem do lixo relacional:

Como andam as suas trocas afetivas e relacionais?
Que relações precisam ser recicladas?
Quais interações negativas realizadas nos últimos dias podem ter gerado uma carga tóxica sobre a sua vida e precisam ser recicladas?
Em quais zonas da vida o lixo ficou depositado?
Como você pretende fazer a reciclagem deste lixo transformando-o em um NOVO produto?

Não somos passivos na vida, mas sim, agentes ativos e participativos na construção de nossa existência, nossas relações com o mundo, nossas experiências familiares e nossa qualidade de vida.
Quando acumulamos toxina precisamos fazer uma limpeza, a fim de podermos funcionar saudavelmente na vida e nas relações. Sempre é possível fazer algo a respeito.
Nossa vida não está terminada, nem pronta, nem precisa ficar estagnada.
Criamos a cada dia nossa vida pessoal, nossa vida familiar, nossa vida profissional. Cada uma destas dimensões da vida está em constante processo de movimento e mudança, e nós integramos e proporcionamos estes processos quando estamos implicados em melhorar nossa qualidade de vida.

Por vezes as pessoas e as famílias precisam reciclar o que até então era dejeto. Conforme Engelhard, "nos núcleos familiares vivemos as mais diferentes possibilidades interacionais. Loucos e sábios são criados dentro desses sistemas vivenciais". E na reciclagem deles somos participantes ativos, formadores de uma "eco-consciência familiar". A mudança não acontece ao acaso, é preciso ter coragem e disposição para trabalhar nela.

Somos imperfeitos, e mesmo na família onde na maioria das vezes podemos ter a intenção de acertar, nem sempre acertamos aos nos relacionarmos uns com os outros. Se assim não fosse, seríamos perfeitos, mas estamos longe disso.

Engelhard, em seu texto alerta: "Toda família tem seus esqueletos guardados em seus armários." E cita uma frase de George Bernard Shaw, escritor irlandês (1856-1950): "Se você não pode se livrar do esqueleto em seu armário, é melhor você ensinar ele a dançar."

A reciclagem do lixo relacional pode ser uma estratégia de gerar uma melhor qualidade de vida.
Você tem se lembrado de reciclar o seu lixo relacional?



REFERÊNCIAS:

ENGELHARD, S. Medidas para a Reciclagem do Lixo Familiar. In: Revista Brasileira de Terapia de Família 4 (1), JULHO, 2012.

Imagem 1 disponível em https://www.google.com.br/search?q=lixo&es_sm=122&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=WGGeU5nWNojLsQS8_4HgDg&ved=0CB0QsAQ&biw=1242&bih=534#facrc=_&imgdii=_&imgrc=8j0mVhXlJP3kcM%253A%3BwAEY7TzcUAy1PM%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.agracadaquimica.com.br%252Fimagens%252Fartigos%252Fclip_image001_0002.jpg%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.agracadaquimica.com.br%252Findex.php%253Facao%253Dquimica%252Fms2%2526i%253D5%2526id%253D125%3B483%3B336
Imagem 2 disponível em:  https://www.google.com.br/search?q=lixo&es_sm=122&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=WGGeU5nWNojLsQS8_4HgDg&ved=0CB0QsAQ&biw=1242&bih=534#facrc=_&imgdii=_&imgrc=Ce8rG9-CY6Wf0M%253A%3B0VeFfVwIbNdl9M%3Bhttp%253A%252F%252F2.bp.blogspot.com%252F-hLNgQU92Yuk%252FTrUd9kBMDyI%252FAAAAAAAACLo%252FOIIBMcnkYLo%252Fs1600%252FLixo%25252B1.jpg%3Bhttp%253A%252F%252Fjairclopes.blogspot.com%252F2011%252F11%252Flixo.html%3B1600%3B1423


Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias.
Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato:
flaviaroldao@gmail.com