segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O que fazer com as memórias na velhice?

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Inicio este texto explicando que não aprecio o termo velhice. Meus alunos de Psicologia da Terceira Idade o sabem bem. Velho é um adjetivo que empregamos a "coisas" muito usadas e que podem ser descartadas. A vida humana é preciosa demais pra ser descartada! Então não como um eufemismo, mas por convicção, melhor mesmo é usar o adjetivo idoso, para refererirmo-nos à PESSOA que teve ou tem o privilégio de chegar a ter muita idade.

Mas..., muita idade é sinônimo de muita experiência de vida?
Nem sempre! É sim, sinônimo de muitos dias já vividos.

Rubem Alves aos 80 anos, quando indagado acerca de quantos anos tinha, respondeu sabiamente como sempre: "quantos anos tenho eu não sei! Se você me perguntar quantos anos eu não tenho, isso sei dizer, - eu não tenho 80 anos, pois esses 80 que são anos que as pessoas dizem que eu tenho, são PRECISAMENTE os anos que eu não tenho, porque estes, EU JÁ VIVI! Esses PASSARAM..."

Esse final de férias, tive algumas conversas com pessoas idosas, e assisti a 2 filmes profundamente impactantes que me puseram em reflexão acerca da dificuldade das pessoas em lidarem com as suas memórias quando idosas. A idade em muitos casos trás um grande acúmulo de EXPERIÊNCIA, HISTÓRIAS, ... MEMÓRIAS! Histórias bem vividas, histórias mal vividas ou histórias que as pessoas deixaram de viver enquanto os anos passaram, tal como quem fica do lado de dentro da janela de uma casa, VENDO A VIDA PASSAR.

Alguns dizem: "A vida não é justa!" ou "A vida, VIDA MESMO, acontece só em casos raros." Ainda: "VIDA, que vida é esta que não ensinou a maioria a viver?!" Mas independente das reflexões das pessoas: sejam elas positivas ou negativas, a vida e o tempo, são implacáveis, eles seguem sempre em frente enquanto as pessoas... PENSAM! "Realidade mental, mundos possíveis" - escreveu Jerome Bruner. Ela passa. e o que fica no fim de tudo isso, são memórias dos tempos que não temos mais - como respondeu Rubem citado acima.

Philomena, a personagem de um dos filmes mencionado anteriormente, precisava "colocar em pratos limpos" a sua história. Precisava RE-passá-la a limpo, agora que estava na maioridade e tinha a possibilidade de fazer suas próprias escolhas e seguir o caminho que escolhesse para si, já que na juventude os pais e a igreja, DECIDIRAM SOBRE A SUA VIDA (ou vida - com "v" minúsculo). Obstinada e talvez movida por necessidade interna profunda, agora depois de idosa, FEZ O QUE ACHOU QUE DEVERIA FAZER, e buscou RE-FAZER a sua história. Mas o tempo é inclemente: ele passa, e mesmo na busca pelo que ficou perdido lá no passado, ela não conseguiu refaze-lo, pois o tempo... havia passado, e com o tempo, pessoas que um dia habitaram a caminhada da vida junto dela, já não mais existiam, morreram ou se distanciaram do caminho que trilhou. "O tempo não para" - já dizia a música interpretada por Cazuza. E a arte imita a vida, seja na música, no cinema, nas pinturas ou na poesia. Isso também cantou Lulu Santos: "Nada do que foi será do jeito que já foi um dia." Philomena me trouxe o profundo silêncio da reflexão interior.

 
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Lembrei de um texto bíblico que diz: "...ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos um coração sábio!" Pensei o quanto essa sabedoria do que vamos construindo ao longo do caminho pode ser refrigério no final da vida.
Citei o filme "Philomena" e quero abordar também outro profundamente impactante intitulado "Trem noturno para Lisboa".

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Este filme é ainda mais curioso que primeiro citado no que tange à temática aqui abordada: A DIFICULDADE QUE AS VEZES AS PESSOAS TEM EM LIDAR COM AS SUAS MEMÓRIAS QUANDO IDOSAS. Neste filme pelo menos quatro personagens idosos e uma jovem, me chamam a atenção com relação a este fato.
 
Nas entrelinhas a mensagem que eles passam é de que, DIGERIR memórias e acomodá-las na história da vida não é um processo nem um pouco fácil! Mas necessário para a serenidade e o bem estar. Conforme alerta Guedea e outros (2006, p. 302) "o bem estar subjetivo é um indicador importante do nível de adaptação na terceira idade, estágio do desenvolvimento que já corresponde na estrutura demográfica atual, a aproximadamente 25% da vida das pessoas." E eu, que me encontro na meia idade, digo para mim mesma: 25% da VIDA a ser vivida - NÃO É POUCA COISA!
 
Memória pesa???
 
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Ouvindo algumas pessoas idosas e assistindo não apenas a estes filmes, mas há vários outros que abordam este tema aqui discutido, tal como os filmes "Ao Entardecer", "O exótico hotel Marilgold", "Noites de tormenta", "De bem com a vida", entre outros, a resposta da vida e da arte parece ser: memórias podem pesar!
Como alertou o psicanalista Gilberto Safra em uma de suas palestras, nesta etapa da vida as pessoas costumam realizar uma contabilidade existencial, elas têm um encontro marcado com as questões significativas às quais foram “empurrando com a barriga”, mas que nesta etapa da vida, não há mais tempo para isso.
Por isso hoje me parece por bem, cuidarmos das memórias que estamos construindo. Da história vivida: que memórias irão ficar?

Daí me toca a sabedoria advinda do escrito bíblico: "Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos coração sábio" (Salmo 90:12), ou na tradução da bíblia "A Mensagem": "Oh! Ensina-nos a aproveitar a vida! Ensina-nos a viver BEM e SABIAMENTE!" - pedia Moisés a Deus em uma oração, que as vezes na minha interpretação teológica, vem aos ouvidos como um clamor absolutamente profundo como alguém cujo coração ARDE e suplica por sabedoria. Mas a própria bíblia orienta que quem tem sede de sabedoria pode pedi-la a Deus.

Algumas conversas que tive nestas férias foram profundas! A arte tem me ensinado muito também.
Não é preciso que passemos por todas as experiências na vida para que possamos aprender as coisas. Podemos aprender muitas coisas com a experiência vicária vivenciada através da experiência estética ao dialogarmos com a arte. É possível aprendermos muitas coisas também, conversando com as pessoas e vivendo ao lado delas na caminhada da vida. A VIDA partilhada durante a caminhada da vida é uma GRANDE MESTRA! Os ensinos deixados através de muitos anos registrados nos livros sagrados também ensinam O CAMINHO para uma vida sábia e de paz. Basta que tenhamos os olhos abertos para ver, ouvidos atentos para escutar, sensibilidade de alma para acolher. Por isso, eu realmente amo o trabalho que venho desenvolvendo há mais de 10 anos com idosos, bem como, a beleza da arte ao nos transmitir ensinamentos de modo absolutamente sensível, e amo muito também, a diretriz que se pode obter dos ensinos advindos dos textos sagrados deixados para iluminar o caminho dos seres humanos desde tanto tempo.

No filme "Álbum de família" assistido por mim estes dias, uma das personagens diz: "Graças a Deus que não podemos prever o futuro, senão, nem sairíamos da cama." O futuro é um tempo em aberto. Ninguém sabe se as escolhas que vão sendo realizadas ao longo da existência são as melhores escolhas. E mesmo que com a idade, vamos ficando mais maduros e esperamos que possamos realizar melhores e mais conscientes escolhas, mas ainda assim, nunca sabemos: o futuro é uma surpresa em aberto.

Para os que como eu, acreditam em Deus, pedir a Ele a direção é um refúgio para a aflição da alma, mas ainda assim, essa é uma das angústias humanas, e nós todos, somos apenas  e exatamente isso: seres humanos, e uma das angústias é: nunca sabemos completamente se estamos no melhor caminho para as nossas vidas, na direção certa. Apenas podemos submete-la a um pode superior (Deus), para que nos guie no caminho, e confiar. Neste sentido, já entramos no terreno da fé.

Certo é, que todos que tivermos o privilégio de chegar à "velhice" ou como eu gosto mais de dizer: "à sermos idosos" - teremos que CON-VIVER com as nossas MEMÓRIAS, as nossas pequenas histórias, que compõem o NOSSO ÁLBUM DA HISTÓRIA DE VIDA até morrermos. Mas é bem certo que para aqueles que têm fé, o futuro não é de abandono, mas de PRESENÇA de um Deus onipresente que não nos abandona na caminhada da vida, mas nos HABITA (mandando o maná, a metáfora da mula que fala, a metáfora do mar que se abre para que um exército passe a pés secos...) o futuro é fecundo quando Aquele que como uma galinha acolhe os seus pintinhos debaixo das asas (Mateus 23:37), cuida da sua criação ainda que de um modo que nem sempre entendamos completamente, apenas vemos, como que por um espelho (I Coríntios 13:12).

A vida é complexidade! VIDA é a maior obra de arte a ser construída.

REFERÊNCIAS:
BRUNER, J. Realidade Mental, Mundos Possíveis. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
GUEDEA, M.T.D;  ALBUQUERQUE, F.J.B; TRÓCCOLI,B.T. e GUEDEA, R.LD. Relação do Bem Estar Subjetivo, Estratégias de Enfrentamento e Apoio Social em Idosos. In: Psicologia: Reflexão e Crítica, v.19, n.2, 2006.
PETERSON, E. H. A Mensagem: Bíblia em Linguagem Contemporânea. SP: Ed. Vida, 2011.
SAFRA, G. Maturidade e Morte. In: http://www.livrariaresposta.com.br/v2/produto.php?id=380
Imagens:
IMAGEM 1  https://www.google.com.br/search?q=trem+noturno+para+lisboa&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=TIvvUuXdH8GmkQeNmYHQDg&sqi=2&ved=0CDoQsAQ&biw=965&bih=454#facrc=_&imgdii=_&imgrc=1a4hQv9KiOiCTM%253A%3BkAjcCvdcVSXveM%3Bhttp%253A%252F%252Fstatic.cineclick.com.br%252Fsites%252Fvideos%252Fimagens%252F1c7ef3bdadccd64a47f1a6fa037e5b51.jpg%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.cineclick.com.br%252Ftrem-noturno-para-lisboa%3B640%3B360
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Imagem 3 https://www.google.com.br/search?q=trem+noturno+para+lisboa&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=TIvvUuXdH8GmkQeNmYHQDg&sqi=2&ved=0CDoQsAQ&biw=965&bih=454#facrc=_&imgdii=_&imgrc=yh7zBMBHKbHR7M%253A%3BIlLf6wU54oMbAM%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.planetadisney.com.br%252Fwp-content%252Fuploads%252F2013%252F10%252FTremNoturnoParaLisboa.jpg%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.planetadisney.com.br%252Ftrem-noturno-para-lisboa-romance-baseado-no-famoso-livro-de-pascal-mercier-ganha-cartaz-e-trailer-nacional%252F%3B880%3B400 
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domingo, 2 de fevereiro de 2014

O bem estar importa? - Um pouco sobre a Psicologia Positiva


O tema da Psicologia Positiva é o bem estar,  e seu objetivo é "aumentar o florescimento pelo aumento de emoção positiva, do engajamento, do sentido, dos relacionamentos positivos, e da realização" - afirma Martin Seligman (2011, p.23), psicólogo americano e um dos seus fundadores.


"Florescer" é o título de um dos recentes livros  publicados por Seligman. Neste, o autor explicita a mudança de seu pensamento desde a publicação de outra obra sua intitulada "Felicidade Autêntica", que é também um outro livro instigante. Esta mudança, conforme podemos perceber, é natural, fruto das reflexões de um estudioso que está em pleno processo de produção acadêmica.



A linguagem utilizada em ambas é leve, atraente, e embora ambos sejam livros técnicos, são uma agradável leitura. O autor é envolvente na forma de encadear suas ideias e apresenta-las ao leitor. É uma obra de fácil compreensão que merece ser lida por pessoas que também não são da área da psicologia.

Conforme Scorsolini-Comin "o movimento batizado de Psicologia Positiva surgiu oficialmente nos Estados Unidos em 1997/1998, a partir da iniciativa de Seligman, que com outros pesquisadores, começou a desenvolver pesquisas quantitativas visando uma mudança de foco atual da Psicologia. A proposta é da modificação desse foco de uma reparação dos aspectos ruins da vida para a construção de qualidades positivas ou virtudes." (Seligman & Csikzentmihalyi apud Scorsolini-Comin 2012, p. 433).

Como dissemos anteriormente o tema da Psicologia Positiva é o bem estar. Bem estar, escreve Seligman, "é um construto" e não uma coisa real. Ele é formado por cinco  elementos, estes sim, são mensuráveis, a saber: emoção positiva, engajamento, sentido, relacionamentos positivos e realização. Nenhum elemento isoladamente o define, mas todos contribuem para o compor.  Estes cinco são os pilares do bem estar, e "o que sustenta estes cinco pilares são as forças pessoais" (idem, p.36).

O bem estar pode ser modificado? - pergunta Seligman. E responde: "Se a Psicologia Positiva tem como objetivo produzir bem estar no planeta, o bem estar deve ser passível de ser produzido." (ibidem, p.42). E nos diversos livros de Psicologia Positiva, os psicólogos envolvidos neste movimento, descrevem diferentes estratégias a serem utilizadas para alcança-lo.

Em Florescer, Seligman ao falar sobre emoções negativas, afirma a importância das pessoas aprenderem a "funcionar bem,  mesmo quando se está triste, ansioso ou bravo - em outras palavras, enfrentando-as". (ibidem p.62) e esclarece: "hoje podemos ensinar as competências do bem estar". (p.75). No livro, o autor conta sobre o primeiro programa de mestrado em Psicologia Positiva iniciado na Universidade da Pensilvânia em 2005. Defende que o bem estar deve ser ensinado nas escolas e relata experiências positivas que tem sido obtidas por estudiosos que vem desenvolvendo programas de bem estar para escolas e universidade sobre a sua supervisão (cita o Programa de Resiliência Penn, o Curso de Psicologia Positiva da Strath Haven, o projeto da Escola secundária de Geelong, o Programa de Aptidão Abrangente para Soldados americanos dentre outros) - (ibidem p.94). Aborda também o tema do crescimento pós-traumático, em resposta às pessoas que sofrem do Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT), e encerra o livro falando da saúde positiva ou a biologia do otimismo.

Quanto à base que sustenta os cinco pilares que constroem o bem estar : as forças pessoais, Seligman entende que elas precisam ser conhecidas pelas pessoas, para serem utilizadas com mais frequência e encontradas mais e mais formas novas de utiliza-las. Indica que as pessoas possam responder ao questionário de forças pessoais, desenvolvido por Chris Peterson- professor da universidade de Michigan, com o intuito de descobrir as suas.

A Psicologia Positiva tem sido aplicada em vários campos diferentes, e atualmente existem vários estudiosos dedicando-se a explorá-la, estuda-la e realizar pesquisas científicas a partir de um olhar fundamentado nela. Tayyab Rashid criou a Psicoterapia Positiva para pacientes deprimidos em busca de tratamento no Departamento de Serviços Psicológicos e Aconselhamento da Universidade da Pensilvânia. Shelly Gable, professora de psicologia da Universidade da Califórnia, estudou a relação de casais a partir desta abordagem positiva. Bárbara Fredrickson investiga as emoções humanas sobre esta perspectiva, e escreveu um ótimo livro sobre a Positividade, já traduzido para a língua portuguesa pela editora Rocco.



Também uma outra obra de referência que pode ser consultada, já em linguagem bastante técnica abordando o assunto é "Psicologia Positiva" de Snyders & Lopes, publicado pela Artmed.

                   

Ainda é possível encontrar em português o livro de Tal Bem-Shahar intitulado "Seja mais feliz".
 

 
E se você quiser ler uma parábola que combina com as idéias trazidas teoricamente por estes autores, vale a pena ver a primeira parte do livro de Gallagher & Ventura, "Sim na terra do Não".
 
 

Para uma introdução bem resumida e em linguagem muito simples, é possível a leitura da "Cartilha do Otimismo", publicada pela Wak editora.



Vários artigos técnicos podem também serem lidos on-line, dentre os quais, vale a pena destacar "Felicidade: uma revisão", "La Psicología Positiva em perspectiva" e "Psicología Positiva: uma nueva forma de entender la Psicología", cujas referencias podem ser encontradas ao final deste texto.

Para encerrar cito um trecho de Derrick Carpeter (apud Seligman, 2011, p.75) que traduz bem o clima que me envolveu enquanto profissional ao conhecer a Psicologia Positiva, e me levou a adotar algumas das estratégias trazidas por estes estudiosos ao meu trabalho em minha atuação enquanto psicóloga.

"Cheguei a uma encruzilhada onde só procurava abrigo por pouco tempo.
Mas ao pousar minha mala e tirar os sapatos,
Notei que esta encruzilhada era diferente de todas as outras que eu já tinha encontrado.
 
Nesse lugar o ar tinha um calor convidativo
e uma vibração permeava todas as coisas.
ao me apresentar aos viajantes ali,
Não sentia hesitação ou desânimo.
Em seus olhos eu via algo que não conseguia identificar
Mas me fazia sentir como se estivesse em casa.
Nesse lugar, juntos, nós partilhávamos e nos encorajávamos
e regozijávamos na ABUNDÂNCIA DA VIDA."


REFERÊNCIAS:

BAUER, S. Cartilha do Otimismo. Rio de Janeiro: Wak editora, 2013.
BEN-SHAHAR, T. Seja mais Feliz. São Paulo: Editora Academia de Inteligência, 2008.
FERRAZ, R. B; TAVARES, H e ZILBERMAN, M. L. Felicidade: uma revisão. In: Revista de Psiquiatria Clínica. v.34, n.5, 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34n5/a05v34n5.pdf
FREDRICKSON, B.L; Positividade. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
GALLAGHER, Bj e VENTURA, S. Sim na terra do não: uma fábula sobre a superação do pessimismo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.
POSECK, B. V. Psicología Positiva: uma forma de entender la Psicología. In: Papéles del Psicólogo, v.27, n.1, 2006. Disponível em: http://www.cop.es/papeles . Acesso em out, 2012.
SCORSOLINI-COMIN, F. Por uma nova compreensão do conceito de bem estar: Martin Seligman e a Psicologia Positiva. In: Paidéia,v.22, n.53,  set/dez, 2012.
SELIGMAN, M. Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem estar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
_____. Felicidade Autêntica: usando a Psicologia Positiva para a realização permanente. Rio de janeiro: Objetiva, 2009.
SNYDER, C.R. e LOPEZ, S.J. Psicologia Positiva: uma abordagem científica e prática das qualidades humanas. Porto Alegre: Artmed, 2009.
VÀZQUEZ, C. La Psicología Positiva em perspectiva. Papéles del Psicólogo, v.27, n.1, 2006. Disponível em: http://www.cop.es/papeles . Acesso em out, 2012.


Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga.
Psicoterapeuta individual, de casais e familias.
Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato:
flaviaroldao@gmail.com

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Dia da saudade


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Dizem que 30 de janeiro é o dia da SAUDADE.
Eu nem sabia! Quando comecei a ver as manifestações sobre a saudade no facebook fiquei surpresa: "Uai, saudade tem dia?" - pensei espantada!

Percebi que até ela tem um dia.
Achei interessante, é um dia de nostalgia então? - refleti sorrindo e conversando comigo mesma.

A reflexão evoluiu e eu, que num tempo remoto tinha medo de sentir saudade, porque afinal, saudade dói. Lembrei de algo que certa vez me disseram: "Só temos saudade daquilo que foi bom. Eu quero poder ter muita saudade."

Certo. Porém quem tem saudade é porque perdeu alguma coisa boa que se foi.
Ah... mas se foi, significa que um dia esteve presente (talvez como um presente!). E isso é motivo de celebração e alegria, pois neste caso, a pessoa recebeu um presente (ou alguma 'presença'), mas de qualquer forma, teve oportunidades e possibilidades de viver algo significativo PARA ELA nesta nossa vida única e breve.

Algo bom? Claro, pois saudade mesmo só sentimos daquilo que valeu a pena, daquilo que tivemos e foi bom. Só tem saudade quem teve vivência boa e construiu memórias tão marcantes que ela deseja sempre re-memorá-las.
Pois das nossas construções de memórias nós também deveríamos cuidar! Das lembranças também se cuida!

Mas se é saudade é porque se foi. Tudo bem, se foi, pelo menos você teve "aquilo/ou aquele/ou aquela... coisa/ relacionamento/ momento/ experiência ... que é objeto da sua saudade" nem que seja por um momento.
Então saudade é coisa boa e ruim ao mesmo tempo.

Ah... é como é a vida... sempre feita de contrastes, oposições dançantes que compõem a existência humana.

Ninguém foge da saudade, nem que seja ao menos uma vez na vida. Nem que seja de comer uma comida (aquela especial). Nem que seja de ouvir mais uma vez determinada música. Saudade é formada de lembranças, memórias, histórias.

Depois de algumas elucubrações que me ocorreram sobre a saudade, no Dia da Saudade, eu de repente me peguei dizendo a mim mesma: "Mas deve ser horrível viver de saudade." Isso mesmo, penso que viver de saudade não vale a pena, prefiro viver de construções. Mas é bom poder ter saudade de algumas coisas também.
Dialogando com um poema de Pablo Neruda, eu diria: "Morre lentamente quem não tem saudade."

Afinal, depois de uma certa idade, quando já se acumulou muito mais experiências do que tempo de vida que em potencial ainda resta, ter saudade - de algumas coisas -  pode ser percebido como uma coisa boa: sinal de que  a VIDA VALEU A PENA!

Mas ao mesmo tempo, enquanto há VIDA que pulsa, bom mesmo é VIVER DE CONSTRUÇÕES,  e deixar que a saudade nos habite apenas em momentos específicos, como lembranças de coisas que VALERAM A PENA NA VIDA. Tal qual uma pessoa que folheia um álbum de fotografia contendo um registro dos bons momentos. Afinal, VIDA - só temos uma. E quem vive de saudade, ao se tornar saudosista, enquanto agarra-se a ela perde a oportunidade de viver o PRESENTE, e deixa escapar no tempo as novas experiências que poderia estar vivendo. E cada dia desta nossa vida é único, e não voltará jamais.

E você o que acha? VALE A PENA VIVER DE SAUDADE?
Ou é melhor VIVER DE CONSTRUÇÃO?

 

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REFERÊNCIAS:
IMAGEM 1 publicada em https://www.facebook.com/photo.php?fbid=628172363903534&set=a.625705897483514.1073743888.270793789641395&type=1&theater 

Imagem 2   https://www.facebook.com/photo.php?fbid=454261764675351&set=a.234624476639082.38249.234619246639605&type=1&theater
Vídeo: Publicado em http://www.youtube.com/watch?v=so-BV9R_BAM


Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga. Psicoterapeuta individual, de casais e familias. Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato: flaviaroldao@gmail.com

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Os sonhos precisam ser atenciosamente cuidados

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Quem tem amizades que duram anos sabe, construir uma boa relação de amizade leva tempo, é trabalho de paciência e cuidado. Mas quem planta colhe.
Ouvi dizer que amigos nascem feitos, não os fazemos, apenas os reconhecemos. Você tem reconhecido seus amigos quando os encontra?

Hoje indo viajar para visitar uma amiga cuja amizade vem crescendo já há alguns anos, no trajeto fiquei lembrando de outro momento em que fiz o mesmo trajeto para visitar a família. Momentos diferentes em que estavam a vida de todos nós, pois a vida não espera, ela não para.

Entendem alguns psicólogos, que para ser feliz uma pessoa precisa de 3 coisas: amor, trabalho e lazer. Refletindo enquanto viajava cheguei à conclusão que eu, pessoalmente acrescentaria duas outras coisas a estas três: ter amizades e desenvolver bem a sua espiritualidade. Se cuidarmos de estar realizados nestas 5 áreas: no amor, no trabalho, tendo lazer, amigos e uma boa espiritualidade, entendo que ao menos estaremos próximos da felicidade. Mas conseguir sentir-se bem nestas cinco áreas dá um grande trabalho e se alguém pensa que as coisas vão se resolver em cada uma delas sozinhas por si mesmo, então precisa estar preparado para lidar com frustração na certa. Gosto muito do ditado popular que alerta: Quem não planta não colhe! E diria Clarice Lispector: "A vida só é possível reinventada!"

Mas as vezes lidar com frustração e dor é parte do processo de crescimento na vida. como lembrou Rubem Alves: "Ninguém gosta da dor. Contudo, sem a possibilidade de senti-la um corpo se acha em perigo. A dor está a serviço da vida. Ela é um sistema de alarme que informa ao nosso organismo que algo está errado." Por isso a dor não é ruim. Ruim é não tê-la quando tê-la poderia ajudar no aprendizado e crescimento pessoal e familiar.

Alcançar um equilíbrio exato de satisfação pessoal nestas cinco áreas é algo bastante difícil, contudo, ter um foco claro ajuda na caminhada da vida, pois quem não sabe para onde está indo, pode chegar a um lugar que nunca imaginou estar, e na hora de pegar um caminho na viagem, qualquer caminho vai servir. Depois não adianta reclamar na chegada.
Sonhos entretanto precisam ser cuidados com atenção e carinho. Alertou Alves: "É preciso engravidar o presente." Para ele, "devido ao seu projeto criativo, o homem mostra-se capaz de conquistar o sofrimento. (...) As utopias nascem quando a vida descobre que seu corpo está condenado à morte. E porque a vida quer viver, tem de dizer: "não" ao seu próprio corpo. Tem de elaborar um projeto de metamorfose: a lagarta deve se converter numa borboleta. Mas para que isto ocorra a lagarta tem que desaparecer."

Você tem cuidado dos seus sonhos? Quais são os seus sonhos em cada uma destas áreas? Qual destas áreas merece mais da sua atenção e cuidado em 2014?

Vale a pena cuidar dos seus sonhos. Os sonhos precisam ser atenciosamente cuidados. Mas para poder cuidá-los, é preciso antes, saber tê-los. Sabe-los !!!



"...Para o deserto converter-se num jardim não basta arrancar espinhos e cardos: deve-se plantar flores e pomares" escreveu Rubem Alves, e este indicador trazido por ele, precisa ser aplicado tanto no amor, no trabalho, no lazer, nas relações de amizade, e no desenvolvimento da espiritualidade. Nada na vida surge do nada. Tudo é fruto de intencionalidade e atenção aplicada: trabalho, atividade.

"Criar aqui neste momento o lugar agora possível para aquilo por que aspiramos, de maneira que ele possa se realizar depois." (Martin Buber citado por Rubem Alves)




REFERÊNCIAS:
ALVES, Rubem. A gestação do futuro. 2 ed. SP, Campinas: Papirus, 1987.
Imagem 1 disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=rD6akIBTqWU
Vídeo disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=rD6akIBTqWU 


Flávia Diniz Roldão
Psicóloga, Pedagoga e Teóloga. Psicoterapeuta individual, de casais e familias. Trabalha com Arteterapia e desenvolvimento humano.
Contato: flaviaroldao@gmail.com

sábado, 4 de janeiro de 2014

O filme: Álbum de Família


Álbuns são compostos por fotos. Fotos mostram a diversidade, a composição, e registram/guardam/marcam os diferentes momentos (cenas congeladas).

O filme "Álbum de Família", de John Wells, é tenso, denso! Dá a vontade de desistir de assisti-lo em vários momentos. É muita gritaria, muito problema junto... ou melhor, uma coleção de cenas (fotos) de problemas juntos. Arte imitando a vida?

Já alertou a terapeuta familiar Froma Walsh: "Dois MITOS da família 'normal' perpetuam uma visão triste da maioria das famílias. Um é a crença de que as famílias saudáveis são isentas de problemas. (...) Essa crença -[diz Froma, citando outro terapeuta familiar chamado Minuchin] tendeu a patologizar as famílias comuns que procuram enfrentar os estresses e as mudanças desorganizadoras que fazem parte da vida (Minuchin, 1974 apud Froma, 2005). Nenhuma família está isenta de problemas. Coisas desagradáveis do infortúnio atingem a todos, de várias maneiras e em vários momentos da vida. O que distingue as famílias saudáveis não é a ausência de problemas, mas a maneira de enfrenta-los e a competência para resolver um problema. Um segundo mito é a crença de que a 'família tradicional' idealizada é o único modelo possível para uma família saudável. Para a maioria, isso invoca a imagem, da década de 1950, de uma família branca, rica e nuclear conduzida por um provedor/pai e apoiada por uma dona-de-casa/mãe em tempo integral."
São mitos estes, pois, conflitos, problemas, crises, mudanças e estruturas diferentes de famílias são realidades presentes desde sempre. E as famílias mesmo dentro do padrão que se poderia chamar "família tradicional", enfrentam muitos problemas e crises.

O que é uma família?
Um sistema de alta complexidade. Um sistema em constante movimento/mudança. E é justamente a simplificação e estagnação deste sistema, que pode torna´- lo disfuncional. São pessoas diferentes, interligadas e influenciando-se mutuamente de forma recursiva.


É na difícil lida com as diferenças, os segredos, as verdades, os sonhos, as lealdades, as fragilidades e as forças, que a família vai construindo a sua história. A história da família. São nos momentos de maior fragilidade, que os pontos não trabalhados na família emergem, suscitando a necessidade de enfrentamento de questões delicadas que foram sendo deixadas de lado, ou "jogadas para debaixo do tapete", mas que urgem então com força total e suscitam serem lidadas.

A união ou desunião nestes momentos faz diferença! Alertou Froma: "Quando os membros da família se unem para enfrentar o desafio, seus vínculos são fortalecidos e os indivíduos podem desenvolver novas áreas de competência." (p.19). Mas esta não é a realidade encenada neste filme. Por isso mesmo tão tenso. Por outro lado, ele ilustra bem o que escreveram Hadley et. al: "Um evento fundamental ou transição perturbadora pode catalisar mudança significativa em um sistema de crença familiar, com reverberações para a reorganização imediata e para a adaptação a longo prazo."(Hadley et al apud Froma, 2005, p. 21). E talvez poucos eventos familiares sejam tão significativos e mobilizadores a uma mudança quanto as perdas, e especialmente a morte.
Lembra-nos Figley que "eventos catastróficos que ocorrem de repente e sem aviso podem ser especialmente traumáticos" (apud Froma, ibidem). E destaca Froma que, "as reverberações, como uma onda de choque, podem se estender por todas as redes familiares(...) em consequência, algumas famílias são devastadas ao passo que outras conseguem se reunir, reerguer e ir em frente." (ibidem). Essa onda de reverberações fica muito bem ilustrada no filme. Após esta morte e o processo posterior vivido pela família, seus membros jamais serão os mesmos, a vida de cada um deles sofrerá mudanças profundas. Para seguir em frente, cada personagem do filme necessitaria criar competência nova e renovada.


Abordando o tema da resiliência familiar, ou seja, dos "processos de preparação da família como uma unidade funcional para o enfrentamento e adaptação às crises e problemas", Froma Walsh destaca que, essa abordagem da família visa "identificar e fortalecer processos interacionais fundamentais que permitem às famílias resistir aos desafios desorganizadores da vida e renascer a partir deles. (...) Muda a perspectiva de se encarar as famílias em situações de angústia como defeituosas, para encará-las como DESAFIADAS, ratificando o seu potencial para o reparo e o crescimento." (p.3).

O evento da morte pode ameaçar a funcionalidade familiar. Mas a morte é parte da vida, uma certeza a ser vivida e enfrentada pelas famílias, de sorte que o trabalho profilático e preventivo pode ser estratégia fundamental no trabalho de saúde mental com famílias. Uma coisa é certa, como bem destacou Froma, a morte exige adaptações, ela deixa buracos e exige reorganizações.





REFERÊNCIAS:
WALSH, Froma. Fortalecendo a Resiliência Familiar. SP: Roca, 2005.
Imagens disponíveis em: http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/em-album-de-familia-as-relacoes-familiares-levadas-ao-extremo
Vídeo: disponível em http://www.youtube.com/watch?v=NME3l2MvpnM 
                             http://www.youtube.com/watch?v=-IRFxJI0Rm8

Flávia Diniz Roldão é psicóloga, psicoterapeuta familiar e de casais, professora universitária. Contato: flaviaroldao@gmail.com

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Trabalho da alma



 
As vezes... quando a alma dói...
Escorrem "lágrimas de diamantes"
 
A areia na concha faz pérola
Estrume pode virar adubo
E planta ressequida encontra novamente o vigor,
tal qual água que hidrata terra árida.
 
É a vida que impulsiona o VIVER
E não apenas se contenta em sobreviver.
É a alma buscando respiração
Desenvolvimento.
 
Não temos "uma vida de estepe"**
E as vezes nos esquecemos disto quando
abrimos mão de perceber o tempo que passa
E a vida escorre por entre os dedos, como água que se vai.


 
NOTAS
 

** "Vida de estepe" expressão usada por um paciente em uma Roda de Conversa em supervisão de Estágios de Psicologia.
Fonte da imagem: http://www.lagrimasdesaopedro.com.br/p/a-obra.html


Quando a alma inflama



 
"Daquilo que eu sei
Nem tudo me deu certeza..." canta Ivan Lins
 
Quando a alma RE-clama
As vezes IN-flama
 
E o que fazer quando a alma inflama?
 
Por que inflamou?
Que espinho na carne entrou?
 
Silêncio... pro-fundo!
 
Abraçar...
Acolher...
Escutar...
Caminhar...
 
Devolver a alma ao mundo
Encharcada de afeto e aceitação.
 
Aprender a esperar, só aprende quem se implica.
Tempo e or-ação
(introspecção e entrega)
 
O caminho se mostra
Mas é preciso ter serenidade e fé para esperar o tempo maturar
 
Tal como
O Verbo
Que no tempo
Certo
Se fez carne
e
Habitou entre nós.